Pragmatismo


Hoje admiti que deus existe.

Somente a existência de um ser superior, pleno de poderes, cujo propósito fundamental é a punição dos meus desvios morais, explica a velocidade da minha internet.

How insensitive

Curto essa coisa minimalista, mas não ao extremo, saca. - disse, e caminhou até o oposto do quarto, e cobriu o abajur de vermelho.
Assim não, o outro protesta, e descobre a lâmpada.

Descobre a lâmpada.

O primeiro apaga a luz.

Só tinha de ser com você



Às vezes tudo o que falta é um contato da Bretanha às quatro horas da manhã de um dia útil. Aí a escolha fica clara como água: a escolha é não escolher nada, que é pra não perder essa coisa boa que é precisar um do outro.

Karma

Sozinho no quarto àquela hora da madrugada provocando os próprios nervos, Suzanne Vega reading a newspaper, só por diversão. Do outro lado da tela, o outro espera por um sinal eletrônico, talvez, um sinal que não vai vir tão cedo, porque não sou desses, porque em seguida eu durmo assistindo um seriado qualquer escrito por uma ex-stripper ou seja lá o que for. Suponho.
Detalhes. Lua em gêmeos, ha, praticamente satanás, foi o que me disseram. Eu nunca disse que era uma pessoa boa, mas tenho ascendente em virgem, então o pessoal vai logo pensando que eu sou uma pessoa boa, e bem organizada e competente – competente, minha vida é o caos, cara. Mas eu sou ateu, graças a deus, nem acredito nessas coisas: só pega em quem acredita.
O outro dia passa sem manhã, querendo ou não, já são seis horas, e a garganta arranha e machuca e o esôfago infla com todo o vazio do mundo. Quem garante, quem garante, melhor mesmo é sentar-se na cama, bem aquecido, preparado, mas inerte, e esperar a vida passar. E se eu morro, aquela pergunta, ora: se eu morro é melhor. Vou ficar aqui quietinho fingindo que já morri só para experimentar como é e quem sabe provar meu ponto de vista. Quem sabe, quem sabe.
Quando chega a hora me despeço do orgulho, ritual de passagem, conecto e penso “quanto de paciência existe no mundo”. Nada, nada. Não sei. Conecto. Nenhum sinal, e a culpa é minha. Deixemos para amanhã, vou ali morrer mais um pouco e quem sabe não reste muito para ser morto pelo vazio. Pela própria incompetência. De novo: suposição.

1.

- Cara, olha que coisa genial: vou pegar para te mostrar.
Deixou-o só, sentado na saleta claustrofóbica, entulhada de dois sofás encardidos, uma estante caindo aos pedaços de cupim e uma mesa quebrada de computador em que se equilibrava a muito custo um modelo informático antigo, todo cinza e muito sujo, zunindo no silêncio do apartamento.
- Posso tomar um copo d’água?, perguntou, e o dono da casa gritou que sim, que podia pegar na geladeira.
Levantou-se e buscou a água, tendo o cuidado de servir-se da garrafa que estava lacrada, porque o amigo era desses que tomam a água no bico e, portanto, se ele se servisse da garrafa que já estava aberta, a água lhe pareceria ter gosto de cuspe.
Seu anfitrião já vinha animado do quarto quando ele voltou à saleta, e trazia consigo uns papéis desalinhados com notas diversas escritas a lápis.
- Este – disse o amigo numa solenidade que ele não conseguiu levar a sério – é um esboço do meu primeiro romance. Vê-se que vai ser uma obra prima. Nasci para escritor, me dói que tenha demorado tanto a perceber meu real talento, meu destino, minha razão de vida.
O amigo lhe sorria calorosamente, sorriso que ele retribuía com um silêncio permissivo, ainda que constrangido.
- Estou te falando – continuou – se Camus estava certo, então a minha escolha é não cometer o suicídio, pelo menos não antes de terminar essa obra. Depois, só o que precisará viver será meu nome, meu corpo poderá apodrecer se assim Deus o quiser.
Falava por falar, pela força da expressão, rábula que era. Não acreditava em Deus, e Ramiro bem o sabia porque era ateu também, e por isso encolheu-se, todo irônico: “Eduardo dramático”.
- E qual é o enredo? – perguntou sem emoção – Me desculpa, Eduardo, mas tu sabe que eu não vou ler teus garranchos.
Eduardo achou graça na franqueza e riu obscenamente. Ramiro irritou-se. Desprezava aquela indulgência, desejava ferir o amigo, fazer contorcerem-se de dor aqueles lábios que não sabiam o que era a melancolia, quebrar os dentes brancos e perfeitos acostumados a conquistar confianças alheias. Sentia-se incapaz, no entanto.
- Certo, não precisa ler. É sobre uma cidade...
- Uma cidade? – perguntou um Ramiro contido, querendo demonstrar ceticismo.
- Sim – Eduardo levantou-se com energia e se botou a explicar sua história, através de gestos, perdigotos e grunhidos, assemelhando-se, na ideia de Ramiro, a um animal selvagem, grande e estúpido, que precisava ser protegido de si mesmo – É sobre uma cidade que, no verão, é invadida por uma fumaça negra, – prosseguiu; falava com dramaticidade – uma fumaça estranha e sobrenatural que toma as ruas e as casas, engole a luz do sol e deixa tudo frio de repente. Um frio asfixiante de humo. Aí as pessoas que vivem na cidade se isolam uma das outras e vão enlouquecendo aos poucos. Veja que é necessário que se isolem, para que percebam, de uma vez por todas, que já eram isoladas, esmagadas pela rotina, sabe, pelos pequenos traumas, pelas coisas sem importância que se repetem e se repetem, por suas reclamações insinceras de tédio, porque, na verdade, elas gostam do tédio, elas amam o tédio, o tédio é seu deus, pois, se deixam de acreditar no tédio, de falar do tédio, de cultuar o tédio em seus perfis no Twitter, então toda a existência que elas conhecem está comprometida, entende? Elas se conhecem através do tédio, o tédio é o que lhes dá razão e sentido.
- Entendo, – refletiu Ramiro – mas não sei. Acho que talvez essa tua ideia de tédio seja um tanto quanto batida, um tanto quanto lugar comum, sabe? Senso comum.
- Tu acha?
- Acho. Não sei se gosto.
Silêncio. Eduardo sentou-se ao lado de Ramiro, que podia sentir seu desapontamento, as células murchando, o entusiasmo se esvaindo, a expiração derradeira do orgulho moribundo. Adorava ser espectador daquela agonia e gozava a dor do outro com bem disfarçado triunfo.
Eduardo ruminou a resposta negativa do amigo por algum tempo, depois o encarou com seus olhos enormes e escuros. Pousando a mão no ombro de Ramiro, numa atitude carinhosa que era bem do seu feitio, suspirou.
- Cara, tua opinião conta muito para mim. Sério mesmo que tu não gostou?
Ramiro atrapalhou-se com aquela demonstração ridícula. Impertinência, impertinência. Franziu a testa. Desesperado, desvencilhou-se do calor da mão e tentou explicar, sem jeito, que não era bem assim, não fora bem isso que quisera dizer. O argumento era muito bom, sim, só o que era preciso era lapidar um pouco a justificativa.
- Aliás, para que se prender a uma justificativa? Deixa o enredo justificar-se por si, a ideia toda é muito boa, a história tem potencial – completou e esforçou-se para mostrar um sorriso encorajador. Eduardo deixou-se consolar como um menino, mas a frágil casca dentro de si já se quebrara sem conserto. Ramiro sabia, fora ele quem provocou o estalo. Fizera de propósito e agora sentia remorso.
- Bem, pode ser – concluiu Eduardo, recuperando de uma só vez o tom enérgico que lhe era característico – Enfim. Estamos é perdendo tempo. Vou tomar um banho rápido e em seguida saímos. Precisa de alguma coisa?
- Não, fico bem aqui.
- Ótimo, volto já.
Ramiro, já sozinho, engoliu o que restara de água no copo num só gole, a garganta parecendo que ia rasgar. “Imbecil”, pensou, resistindo a declarar, ainda que mentalmente, a quem se referia.

Casa (Fragmento)

No início do dia, quando a cozinha se enche com toda a manhã que vem da rua e que atravessa as cortinas amarelentas, eu desejo viver numa casa menor. A solidão contida em todo o espaço quase sem móveis, de uma parede branca manchada à outra, é como se me comprimisse, e o pé direito muito alto me dá vertigem – eu que sempre tive medo de altura.
Não que com o tempo eu não tenha me acostumado. Pouco antes de falecer a Má, que deus a tenha, fomos as duas fechando peça por peça da casa, e agora eu só vivo entre meu quarto e a cozinha. Nós duas não tínhamos mais força para limpar o resto, então fomos desistindo da casa aos poucos. Às vezes, a Má me aparece no meio da noite, em sonho, e eu acordo suando frio e com o rádio ligado. Queria que ela não fizesse isso, era uma velhinha tão boa. Não imagino por que não possa descansar em paz. Um dia, pouco depois do enterro, veio o mais velho dela aqui. Rapaz taciturno. Perguntei da esposa, ele não me respondeu. Pediu a bênção, como fazia quando era criança, e me entregou um pote de mel que parece que era produzido na fazenda onde ele morava. Naquela noite desabou o céu e, cada vez que tinha um relâmpago, eu me arrepiava toda, e a casa também se arrepiava e a mobília toda rangia. Fiz muitas vezes o sinal da cruz e pensei naquele rapaz: era a última vez em que eu o via.
Desde que o patrão morreu, a família não veio mais aqui. Soube que a esposa, senhora distinta, se internara em algum asilo pouco tempo depois de enviuvar, pressentindo que não faltava muito para perder a lucidez, e eu não sei bem pra qual dos filhos ficou a casa. Ainda não veio ninguém reclamar. Enquanto isso eu continuo cuidando daqui como minha mãe fazia quando era viva, tomando conta do pomar, das galinhas e dos patos que se criam meio soltos em volta da casa.
Quando dói muito não falar com ninguém e parece que eu vou esquecer como que se fala, ligo o radinho velho da Má na tomada e ouço umas músicas antigas, do tempo em que a casa era cheia de gente. Os retratos escurecidos pelos anos ganham vida e conversam comigo. São muitos os rostos, tão familiares para mim, mas não lembro do nome de nenhum deles. Tem um que eu sei que era médico e que sempre reclama que a casa parece que está atrofiada, e eu faço que sim com a cabeça, “é verdade doutor, mas esse é mesmo o destino de gente velha, ir perdendo aos poucos a memória e os movimentos. Com a casa da gente é a mesma coisa”.

Átimo

Essa poderia ser a história de um rapaz, um rapaz que olha pela janela do carro através da chuva e vê uma moça, uma moça que parece perdida. Não estamos todos perdidos?, ele pensaria, e, tendo coragem de descer do veículo, despindo-se bravamente da blindagem que o envolvia, pediria licença a ela, como um cavalheiro, e lhe pousaria um beijo nas costas da mão, de modo que ela não resistisse ao galanteio e sorrisse, ainda que seu instinto feminino a forçasse a parecer ofendida. Ele a convidaria para fazer qualquer coisa, talvez um café, de acordo com o clichê. Ela, rezando da mesma cartilha dos relacionamentos, de pronto sentir-se-ia ofendida, lhe diria que não. Mas ele, sendo tão doce, com mais uma ou outra palavra e um olhar irresistível, faria com que ela mudasse logo de ideia e seguiriam os dois juntos ao lugar seco mais próximo, que seria quente e alaranjado, em contraste com a chuva azul-cinzenta do lado de fora.
Os dois não trocariam beijos nesse primeiro encontro, é claro, deixariam para conhecerem-se melhor, trocariam e-mails, números de celular, expectativas de tardes ensolaradas ou não tão molhadas quanto aquela, ao menos, em que juntos passariam pelas alamedas dos parques, nos trechos de sol por entre as árvores, e encontrariam num chafariz ao fim do caminho não somente o sorriso um do outro, mas o sorriso acolhedor de um mundo inteiro, que os seguiria com os olhos. Aí sim se beijariam. Passariam os meses e os dois, palpitantes, ver-se-iam cada vez mais, precisando sempre de doses maiores um do outro do que da última vez em que se experimentaram.
Deixar-se-iam levar tanto pelos corações que, quando chegasse o dia em que a paixão se arrefecesse, não conseguiriam, a princípio, compreender o que se lhes faltava, até que começassem a sentir uma solidão crescente e os olhares, cada vez que se tocassem, doeriam, lhes acometendo de súbito uma tristeza imensa que terapeuta nenhum no mundo poderia explicar. Então um dia diriam um ao outro toda a sorte de coisas horríveis que lhes viessem à cabeça, só para escorcharem-se as feridas como se a dor causada, aumentada, diminuísse a sua própria. Perceberiam por fim, depois de muito tempo, que esse jogo de querer mostrar ao outro na pele o quanto sofriam somente lhes faria sofrer mais e mais, até o dia em que acordariam pela manhã compreendendo enfim que a ausência do outro lhes é mais do que indiferente, é um alívio. Respirariam fundo nesse dia, lembrar-se-iam com carinho de uma tarde em que fugiram da chuva, guardariam essa lembrança à chave no fundo de algum lugar que poderiam até chamar de alma os menos céticos, e levantariam da cama enfim em meio a uma manhã branca de sol, aptos a começar uma história nova.
Mas o mundo é tão infinitamente simples que está muito aquém do que queremos poder perceber. A história passa tão rápido pelos olhos do rapaz que ele nem mesmo a percebe e, quando o sinal torna-se verde, tira os olhos da garota e acelera para casa, deixando para trás, e nem sei se faz tão mal, três parágrafos inteiros de possibilidades incompletas e suposições.