Átimo
Tarcísio e a mãe
visceral, clássico ao menos.
Tarcísio andava, entretanto, pela casa dos cinqüenta anos e de repente a idéia da velhice o esmagava enquanto andava pela rua, ou quando assistia ao telejornal. As idas ao médico se multiplicavam e sentia que apesar de todo o esforço da alma em agarrar-se à juventude que restava, o corpo inábil a deixava escorrer por entre os dedos. Nunca se casou, não teve filhos e, embora tivesse viajado bastante, nunca passara mais que um mês fora de sua cidade natal, onde a mãe viúva morava desde sempre e para tudo dependia dele. Surpreendia-se constantemente tomado por um sentimento de frustração que lhe irritava muito e ultimamente dera para culpar a mãe por tudo. Em cada fracasso, em cada chance que perdera na vida, passou a enxergar a sombra maternal, “não case com ela, meu filho, não é boa moça, se casar eu morro”, “para que trocar de emprego, Tarcísio, não troque o certo pelo duvidoso, não mate a sua mãe de preocupação”. A última da velha era a súbita paixão pela casa da praia, que era enorme e demandava tamanha quantidade de energia e de dinheiro para mantê-la que não fazia valer as duas semanas que geralmente lá passavam Tarcísio e sua mãe no verão, os dois entediando-se um ao outro e brigando e discutindo o tempo todo, fosse por causa de uma lâmpada queimada, fosse devido a um livro qualquer guardado com displicência.
Era muito mais inteligente se livrar da casa. Explicou à mãe com toda a paciência que não precisavam mais de todo aquele espaço, há muito que não tinham parentes nem amigos assíduos que lhe utilizassem as dependências. Eram obrigados a pagar um caseiro para passar lá o ano e constantemente pagavam à mulher dele por fora para fazer uma faxina no imóvel. E havia também os impostos, eram horrores de impostos todo ano! Além do mais, a propriedade obrigava-os a passar lá as curtas férias de verão de Tarcísio, que poderiam ser bem melhor empregadas se a cada ano pudessem ir a um lugar diferente. A velha fez pouco caso do discurso, porém, e agarrou-se à idéia de que lhe cabia, como matriarca, a consagração dos bens e das tradições de família. Fora o pai de Tarcísio que escolhera aquela praia e aquela casa como o porto seguro de lazer da família no verão e havia sido assim desde que Tarcísio era um bebê e ela era obrigada a limpar suas escatologias. Tarcísio contra-argumentava, em vão, que, se fosse esse o problema, bastava comprar uma casa menor, na mesma cidadela, quiçá na mesma rua, e assim teriam menos trabalho e menores despesas. A velha achou, então, oportunidade para um de seus dramas folhetinescos. Tresloucada e já em prantos, a mulher rogou ao filho que prometesse a ela não vender a casa nem depois que ela morresse. Tarcísio desistiu, então, de convencê-la e já lhe dava as costas quando ela insistiu com o pedido agarrada à cintura do homem, como se ela fosse a filha, débil e indefesa, e ele fosse o pai, senhor da felicidade e do desespero profundo de sua cria. Ao vê-la tão patética, Tarcísio comoveu-se, como de costume, e não teve remédio senão dizer em voz baixa, derrotado: “sim, mãe, eu prometo pra senhora”.
Passaram-se dias sem que a idéia do fracasso em convencer a mãe a aceitar uma transação tão simples e tão lógica deixasse de atormentar Tarcísio. Precisava pensar num modo de convencê-la, de inserir nela tão perfeitamente a idéia de que aquela venda era necessária, que a velha confundida acharia que a iniciativa partiu de sua própria mente senil e empregaria a própria energia histérica em prol da causa, esquecendo-se completamente da promessa a que obrigara o filho. A questão era como fazer isso, uma vez que Tarcísio não era, nem de longe, um exemplo de persuasão. Os colegas de trabalho riam-se sempre de suas contendas com a mãe, não adiantava pedir conselhos a eles, porque sabia que o encorajariam a vender a casa sem dar satisfação à mulher, uma vez em que era procurador dela e herdara também sua parte da casa. Só que os colegas não estariam lá quando ele tivesse que dar a notícia a ela e não tinham idéia do espetáculo que com certeza aquilo renderia. Tarcísio não tinha outras pessoas que pedir conselhos, entre o trabalho e os cuidados com a mãe, afastara-se de todos os poucos amigos que tivera na vida. Não tinha sequer uma amante, dessas que participam tanto da vida dos homens, os suportam em suas decisões e pensam com eles em seus problemas na cama ainda nuas, depois do ato sexual. Fazia anos que Tarcísio não tinha uma amante e sentia que se não tivesse negligenciado esse aspecto de sua vida, provavelmente se sentiria mais homem para resistir às cenas da mãe. Agora era tarde para pensar nesses deixados, concluía ele por fim, precisava de uma idéia para convencer a mãe a vender a casa antes que ela morresse de vez: sabia que não teria coragem de lhe quebrar a promessa depois de morta, julgava-se um desfibrado inseto por isso, mas não podia fazer nada. Sabia que não teria coragem e ponto.
A solução veio por acaso, num café da manhã de dezembro. Costumava fazer o desjejum no apartamento da mãe, sua vizinha de porta. Ao passar manteiga num pão, o velho rádio de cima da cômoda da sala de jantar recapitulava – num radiojornalismo-tablóide, desses tão ao gosto das camadas populares e também dos residenciais geriátricos (com direito a anúncios comerciais de funerárias e de remédios para artrites e artroses) – recapitulava os assaltos e seqüestros a veranistas que assolaram a orla (Tarcísio riu-se do termo – quem ainda se refere à "orla"?) na temporada passada. O radialista perguntava-se, para concluir o bloco, numa eloqüência populista, se teriam de novo que sofrer com a violência os honestos contribuintes do litoral. A mãe de Tarcísio concordava com o que ouvia e fazia pequenos comentários sobre como o mundo era um lugar pior graças às novas gerações e sobre como Popokelvski era um radialista bom e “das antigas”.
Tarcísio achou a princípio a idéia engraçada, depois um tanto quanto ingênua. Por fim disse “e por que não?”, se a mãe era tão afeita a folhetins, não haveria melhor maneira de lidar com o problema. Na mesma semana, saiu como se fosse ir ao trabalho e, antes de alcançar a freeway, fez dois telefonemas: um para o chefe, dando uma desculpa para a ausência, outro para a mãe, se desculpando por não poder almoçar em casa. Ia ter que aguentar o mau-humor da velha mais tarde, mas o plano excitava-o tanto que foi capaz de deixar esse pensamento de lado. Que peça pregaria na mãe! Era capaz de se tornar uma pessoa melhor até, por que não dar essa oportunidade à sua mãezinha? Tinha certeza de que ela iria querer se livrar da casa depois disso, era genial. Mas tinha que fazer direito. À polícia não precisaria mentir muito, era só deixar que a mãe tomasse para si o relato mais contundente dos fatos – o que ela certamente faria, quer ele tentasse a impedir, quer não. Precisava apenas era de um homem de confiança, e o caseiro não ia servir. Depois de todo aquele tempo sustentando aquele homem grosseiro e inútil, que passava o ano todo utilizando seus talheres e dormindo em suas camas, claro que ele não iria se dispor a colaborar com um plano que lhe tiraria o emprego. Resolvera isso no dia anterior, contatara um velho conhecido que conhecia um homem que conhecia outro homem que era perfeito para o serviço. Dirigia agora para o litoral a fim de encontrá-lo pessoalmente e discutir os detalhes do projeto. Estava disposto até a deixar que ele levasse alguns de seus equipamentos eletrônicos como parte do pagamento, até para que a coisa toda ficasse mais realista. Acertara suas férias para logo depois do natal e duas semanas depois partia com a mãe para a casa da praia confiante no plano arquitetado.
Na segunda noite de sua estada, deixou o portão descadeado de propósito. Estavam na sala de estar do térreo, Tarcísio e a mãe, quando entraram dois homens, armados de revólveres 38mm e renderam os dois. A velha gritava enquanto a amarravam, jogava os membros em todas as direções com uma força absurda e chegou a acertar uns bons pares de chutes e socos no bandido, que retribuiu com uma coronhada truculenta no rosto da velha. Não era difícil para Tarcísio fingir o pânico considerado o medo de que tudo desse errado, ou de que a mãe suspeitasse do mínimo sequer, e a violência do homem contra a senhora indefesa o ofendeu de verdade, de modo que ao protestar e xingar o agressor, também Tarcísio levou o seu golpe. Um dos homens permaneceu na sala com os dois enquanto o outro foi à cozinha atrás dos empregados. A velha recusava-se a parar de gritar, xingava o pretenso assaltante com palavras que Tarcísio nem sabia que ela sabia e com outras que mesmo Tarcísio não conhecia. O homem, de boné e óculos escuros, mandava ela ficar quieta, intimidava-a com a pistola, mas era inútil - a velha agora cuspia nele, ele cuspia de volta na velha. Em outras circunstâncias, Tarcísio teria achado aquilo tão grotesco quanto cômico, mas não raciocinava naquele momento, o cérebro como uma esponja pesada, encharcada de adrenalina. Quando o segundo homem retornou da cozinha com o caseiro e a mulher, foram trancados os quatro no banheiro do térreo, a velha ainda chutando e berrando e arranhando o ar com garras invisíveis. Quando, por fim, restaram apenas os quatro no escuro claustrofóbico do banheiro, a idosa começou a perder o fôlego. Respirava rápido e com força e produzia roncos horríveis que vinham de dentro do peito. “Tarcísio, Tarcísio” ela repetia, mas não era capaz de falar com o choque. Tarcísio tentava acalmá-la, insistia que o melhor era se livrar daquela casa, que a propriedade chamava atenção, não havia necessidade daquilo se a mãe o ouvisse só um pouquinho, só de vez em quando. A velha ficou em silêncio. Tarcísio era todo tensão, a qualquer momento agora a velha teria que dar o braço a torcer. Aguardou ansioso o julgamento da mãe por uma eternidade quase material, quase palpável, mas ele não veio. Demoraram a perceber que a velha tinha parado de respirar e Tarcísio reparou que não sentia tampouco os batimentos cardíacos da mãe, amarrada às suas costas, até há poucos momentos fortes e acelerados. A desgraçada estava morta e Tarcísio, paralisado. No silêncio que se fez entre a constatação da morte e a gritaria da esposa do caseiro, Tarcísio pôde ouvir os homens revirando a sala, derrubando e quebrando propositalmente uma série de objetos, bem como ele tinha lhes instruído.
O cavalo dançarino
Uma noite com Ginger Rocha
Uma taça de leite quente
Havia qualquer coisa na manhã que era diferente. Raissan de alguma forma notou, mas não acreditava que lhe dissesse respeito, era provavelmente o ar mais poluído, a rua mais suja, o arroio mais fétido, qualquer coisa assim que não fazia diferença para ele. Tirou os sapatos, como de costume, dobrou cuidadosamente o moletom e escondeu tudo debaixo de uma das pontes que cruzava a avenida, receoso dos outros meninos da rua. Àquela hora da manhã, o fluxo de automóveis era bastante intenso já, Raissan tomou seu lugar ao lado do semáforo. Mal avermelhou o disco, partiu para a primeira rodada do dia. Teve sorte logo no primeiro carro, uma moça, uns vinte anos, lhe alcançou umas moedas e uma metade de sanduíche, que acabou dividindo com três ou quatro meninos que conhecia de vista, porque sabia que os egoístas não duravam muito tempo no negócio. Seus pequenos pés, endurecidos da labuta diária, iam e vinham ágeis entre as máquinas, uns carros fechando suas janelas depressa ao avistar-lhe e aos outros meninos, outros recusando ajuda. Outros ainda contribuindo com um trocado, mas todos eles de olhares temerosos, pavor, pavor pregado nos rostos. Raissan não compreendia, com toda sabedoria de rua que tinha aos quatro anos, porque era que os olhares dos homens dos carros eram tão pavorosos. Raissan tinha muito medo do escuro e à noite, quando a madrasta e os irmãos dormiam ao seu lado, e sempre dormiam antes dele, pregava os olhos e ficava imóvel, mudo de terror, exatamente como aquelas pessoas ficavam quando ele se dirigia a elas, então, de certo modo, sabia o que sentiam. Não sabia bem era o que é que temiam, algum monstro, ou bicho, ou inseto, não sabia, não podia entender como era que aqueles homens e mulheres tão adultos, tão limpos e confortáveis dentro de seus carros, podiam temer tanto alguma coisa na ordem estofada que eram suas vidas. Estofamento e medo eram duas idéias que, para Raissan, não faziam sentido unidas.
Nos intervalos entre uma fechada de sinal e outra, Raissan gostava de observar os personagens que se aglomeravam no cruzamento. Havia as crianças como ele, pedindo, os adultos que também pediam, as crianças e adultos que vendiam alguma coisa, os artistas e os vendedores de jornais, que procuravam não entrar em contato com o resto, um ou outro pedestre, que passava bem depressa, e os motoristas, cujos perfis compenetrados passavam mais depressa ainda. A velocidade deles não se comparava, é claro, proporcionalmente, à velocidade das curtas pernas de Raissan, grossas de ficar em pé o dia todo, que conheciam pelo tato o caminho entre os carros e lampejavam aqui e ali, onde houvesse uma janela aberta. Uma vez ou outra, esperando o momento de pedir, Raissan desejava que o dia passasse tão depressa quanto os intervalos dos semáforos. Detestava passar o dia todo ali, digo, para ele não faria diferença passar algum tempo na sinaleira, uma hora ou duas, ou até atingir determinado valor, porque no fundo, não era um menino preguiçoso, mas não tinha essa opção. Era ficar no sinal do amanhecer até quase a madrugada, ai dele se aparecesse antes. E se tentava escapar, a madrasta sabia, sempre sabia quando ele não permanecia o dia todo em seu posto, não sabia como, mas aquela danada daquela mulher podia adivinhar-lhe as mentiras, e, quando isso acontecia, era surra na certa. Já pensara em fugir para sempre também, nunca mais voltar para casa, mas não tinha para onde ir. Sofreria mais num abrigo sem o pai, sem os irmãos, sem ninguém, e mais ainda na rua, as coisas que as crianças que ficavam pela rua tinham de fazer eram terríveis demais mesmo para Raissan, que estava acostumado com a aridez do asfalto, com a dureza do cruzamento. O menino ficava exausto só de pensar na caminhada que lhe aguardava no fim do dia, da avenida até a casa da madrasta, mas não voltar para lá, ficar pelas marquises da avenida, como muitos dos que ele conheciam ficavam, era potencialmente pior.
Lá pela metade da manhã, Raissan já havia juntado uma quantidade razoável de moedas, poderia até barganhar alguma coisa para almoçar ao meio-dia. Estava satisfeito consigo mesmo. Foi quando avistou o Renan.
O Renan era o líder de um grupo de caras mais velhos, de treze, quatorze anos, que se chapavam e achavam que por isso podiam mandar nos menores. Metiam medo em todo mundo, andavam sempre em bandos, como uma matilha, pedaços de metal afiados nos bolsos, cola nas mangas, chinelos de dedo e tênis roubados de outros moradores de rua. Habitavam uma praça no centro durante a madrugada, dizia-se que alguns deles até se prostituíam, mas ai de quem falasse isso perto de um deles, ou que eles ouvissem falar de alguém que tivesse dito isso: era lâmina para o infeliz. Uma vez, Raissan presenciara quando um menino um pouco mais velho que ele, que devia alguma coisa ao Renan, não se sabe bem, e que quando avistou o bando vindo, mais ou menos na mesma hora em que vinham hoje, tentou fugir deles para o meio da rua e morreu atropelado. Naquele dia, Raissan voltou mais cedo para casa, assim que escureceu. Contou para a madrasta o que acontecera, explicou que o maior medo que tinha era de morrer atropelado e que se sentira tonto o dia todo depois de presenciar a morte do outro garoto. A madrasta não lhe bateu daquela vez, apenas gritou com ele, “e medo de morrer de fome, você não tem”, e Raissan não pôde dormir por uns dois dias depois disso; cada vez que pegava no sono, era como se o menino morto viesse falar com ele, dizer para tomar cuidado com as ruas tocando os dedos transparentes e frios no seu ombro, o mesmo cheiro do arroio invadindo as narinas de Raissan. Dizia também para não se meter com Raissan, não usar cola, nem usar pedra, que foi por causa disso que ele morrera. Raissan tinha muito medo de cole e de pedra, tanto quanto tinha de escuro e de atropelamento. O pai, mesmo ébrio, lhe dizia sempre para não se meter com essas coisas, mas nem precisava, Raissan se mantinha longe delas por vontade própria. Naquela manhã, ao ver se aproximar o bando de Renan, usou sua técnica de ficar invisível, aprendida um desenho numa manhã de domingo, o único dia em que a madrasta o permitia não ir para o sinal pela manhã. Não sabe se é porque estava nervoso, ou porque estava nublado – desde o início sabia que aquela era uma manhã diferente –, mas o fato é que não funcionou o truque, Renan não somente o avistou como decidiu mexer com ele. O bando parou rindo do seu lado, um dos caras já cutucando o seu rosto, outro pedindo dinheiro, “ajuda aí meu, todo mundo tá dizendo que tu tá bem hoje”. Como ele fizesse menção de não entregar o dinheiro, o próprio Renan o segurou rudemente pelo ombro e mandou ele passar algumas das moedas que conseguira, porque “quem era egoísta não sobrevivia no negócio”. Raissan alcançou ao garoto um punhado de moedas de má vontade. “Mais, meu”, exigiu o bando, Raissan foi dando mais, já dera mais da metade do que reunira naquela manhã, “mais!”; deixaram-no sem uma moeda sequer. Renan ainda cuspiu nele antes de ir embora, “bicha, tem um jeito de mulherzinha”, desapareceu o bando numa nuvem de loló, rindo feito doidos, feito humanos ante um filme de terror daqueles violentíssimos.
Raissan sentiu vontade de chorar, mas num segundo só sentia raiva, falou todos os nomes feios que conhecia, os débeis lábios explodindo ferozes em vulgaridades pornográficas e escatológicas, muitas das quais nem sabia o significado – muitos adultos de quarenta anos que passavam indiferentes em seus carros não sabiam os significados da maioria delas.
Voltando para casa à noite, cabisbaixo, com metade do dinheiro do dia nos bolsos, pensou num milhão de vinganças que podia pôr em prática contra Renan, formaria seu próprio bando, pagaria por uma arma, machucaria tanto o Renan antes de roubar tudo o que ele tinha e depois o deixaria nu para ser atropelado no meio da avenida. Chegou em casa um pouco mais tarde que de costume, a madrasta foi logo lhe gritando da oura peça que o irmão estava doente e que precisava de ajuda, e também que a janta que fez acabara porque seu pai chegara em casa com muita fome e que ele podia ver alguma coisa na geladeira para comer.
Ouviu, Raíza? – a menina levou um susto ao recobrar a condição feminina. Eventualmente se esquecia de que em casa ainda havia alguma segurança. Lavou os pés escurecidos enxugando-os no pano de chão. Na geladeira, apenas leite gelado, que Raíza serviu numa caneca de plástico. Esqueceu a avenida no que durou aquele leite, deixou de lado o Raissan, o Renan e seu bando, o disco luminoso trocando de cor sobre os motoristas e seu medo. Quase esqueceu os próprios medos, mas eles voltaram quando, no quarto escuro, a madrasta a mandou ficar de guarda e foi se deitar com seu pai do outro lado da cortina. Adormeceu tirando a febre do bebê, o gosto de leite ainda na boca.
Sapos
– Sinto que está para chover.
Como nenhum dos dois respondia, ela continuou – Tão enormes vocês dois, tão velhos e ainda de birra.
O homem à esquerda, regata e chinelos de dedo, olhou para ela como se subitamente percebesse sua existência. O homem à direita, barba cerrada e óculos de grau, continuou encarando o nada, limitando-se a fazer uma careta – era o mais orgulhoso dos homens.
– A mãe de vocês diria o que dessa situação?
– Provavelmente ficaria do lado desse aí – resmungou o barbudo sem mover o pescoço.
O homem que não tinha barba bufou, “sempre o mesmo”. A mulher entre os dois estalou a língua, ajeitou-se sobre os próprios joelhos – Adianta manter essa implicância um com o outro, adianta?
O de barba pediu licença e já ia se levantando, a mulher o reteve – Pode ficar aqui, resolveremos isso agora mesmo.
– Como que se resolve vinte anos agora mesmo? – indagou o sem barba, sem se dirigir propriamente à mulher.
– Indo dormir é que não se resolve. Eu não tenho a paciência que a mãe de vocês tinha, família é coisa séria e eu disse que não ia dormir enquanto não resolvesse isso.
– Bom, então você fica aí conversando com seu maridinho e resolvendo isso que eu vou para a cama, quero voltar pra cidade ainda amanhã de manhã.
– Deixa, deixa, que não dá pra falar com ele. Não escuta.
– Você que escuta, não é mesmo?, mas só para poder dizer que é você que está sempre certo.
– Ok, já estabelecemos um diálogo ao menos. – a mulher espalmou as mãos sobre as coxas. Um relâmpago ricocheteou no horizonte ao mesmo tempo, o ar tornou-se mais pesado.
– Não me entendo com esse daí nem que chovam sapos – disse o irmão que estava de pé, e acrescentou – aliás, pergunta para ele por que é que eu detesto sapos.
– Você me diz, por que é que você detesta sapos?
– Um dia a gente tava brincando aqui mesmo nessa casa – respondeu o da regata num meio sorriso – eu e meus amigos...
– Sim, porque só ele é que trazia amigos para a casa de praia. A mãe implicava com qualquer pessoa que tivesse a audácia de apreciar minha companhia. Mas ele não, ele podia ter quantos amigos quisesse, eram todos muito bons...
– De fato, seus amigos eram um pouco estranhos. Todos eles, se é que você me entende.
– Você não tinha me conhecido se eu não tivesse sido amiga dele primeiro – atalhou a mulher.
– Você foi a única com quem a minha mãe não implicou, decerto porque sabia que ele também gostava de você, gostava de você de um jeito que eu nunca pude gostar.
Os três retomaram o silêncio num certo constrangimento. O irmão de barba se arrependeu um pouco do comentário, o de regata abriu a boca para falar um par de vezes, mas não encontrou palavras, pelo menos não boas palavras, palavras que não o comprometessem.
– Enfim – a mulher foi quem quebrou o silêncio novamente – você estava aqui com seus amigos...
– Sim, e eles acharam uma boa idéia – tentou continuar o irmão de regata, mas o barbudo o interrompeu mais uma vez.
– Seus amigos não prestavam. Um era filho do agiota, a outra era filha do estelionatário, os dois iguais aos pais e iguais entre si, não foi à toa que se casaram.
– Eu não sou obrigado a ouvir isso. – Foi a vez do segundo irmão se levantar – A sua gente é que é decente, é? E você quem é para julgar, hein? Me responde, grande coisa que você é, meia dúzia de faculdades pela metade, remédios tarja preta. Quem é você, hein? Eu não fui criado com você.
O de barba enfezou-se, cruzou os braços e apertou os lábios, como um menino grande. O de regata, muito mais corpulento que o irmão, embora ligeiramente mais baixo, o enfrentava de peito estufado, braços para trás, provocando o irmão, patético galo de briga.
A mulher levantou-se também, temendo já pelas vias de fato, mas os irmãos não chegariam a tanto; depois de uma certa idade, nunca mais tinham se agredido fisicamente – o que não fora necessariamente saudável.
– Estamos aqui para resolver problemas, não para criar mais um! Eu não agüento mais esse clima pesado em cada data festiva, em cada aniversário! Eu conheço bem vocês dois, vão resolver isso aqui nem que seja a última coisa que eu faça. Ou eu vou sair, hein, pego o carro e vou embora daqui e nenhum de vocês vai me ver ou falar comigo de novo, nunca mais, ouviram bem?
O irmão de barba riu.
– Que foi, acha que é uma piada?
– Não. Mas você pareceu muito a minha mãe falando agora.
– Esqueci que ela fazia isso – acrescentou o outro – ficava dizendo que ia embora quando a gente brigava. Mas nunca ia, nunca foi.
– Você sempre começava a chorar e ela ficava do seu lado...
Mais um relâmpago refletiu nas janelas da casa de praia. A coruja entocou-se junto aos seus ovos no terreno baldio da frente. O vento acelerou.
– Ela sempre dizia que você era mais parecido com ela – disse o da regata.
– Mas era de você que ela gostava mais.
– Eu acho que não – atalhou a mulher – Só porque ela o protegia mais, não significa que gostava mais dele. Eu concordo com ele, você é muito mais parecido com a mãe de vocês, mais independente. Você é áries, né? A mãe de vocês também era de áries. Eu também sou, é por isso que a gente se dá bem. Seu irmão é de peixes, isso é uma coisa que nós temos em comum: nenhum de nós resiste a um charme de peixes. – Ela passou de leve a mão no rosto do marido, o irmão de regata.
– Mas você bem que gostava era dele... – disse o da regata num tom meio amargo. A esposa, de leve ofendida, afetou horror e resetou a mão.
– Como assim? Como que você me diz uma coisa dessas?
– Todo mundo sabe. – Ele riu, melancólico – até tentaram me alertar, veja só. No dia do casamento, um primo veio me dizer que achava, veio me perguntar se eu não duvidava de que era dele que você realmente gostava, se não tava casando comigo como prêmio de consolação...
A mão que acariciava tão logo se transfigurou em tapa que mesmo o irmão de barba sentiu como se tivesse sido atacado no próprio rosto.
– Às vezes... – a mulher não terminou a frase. Desta vez foi o rouco barulho de um trovão que estourou ao longe, fazendo os sapos coaxarem mais alto.
– Não é impossível, sabe... – disse o irmão esbofeteado esfregando o rosto, para surpresa do outro irmão, aproveitado o ensejo para fugir do conflito que ele mesmo causara – Não é impossível chover sapos. Acontece com freqüência, onde tem furacões e tal.
– Como naquele filme... – disse a mulher desviando os olhos vermelhos dos dois irmãos. O de barba olhava para o casal estupefato, o irmão e a cunhada, o diálogo tornando-se surreal.
– Sim. Os ventos levantam os bichos e chovem partes deles congeladas.
– Que nojo... – disse a mulher franzindo o rosto e encolhendo-se num arrepio, não se sabe se de frio, pelo tempo que virava, ou se de repugnância.
– E que fim leva a história dos sapos afinal? – quis saber ela, esfregando os braços.
– Digamos que... Choveu sapos naquele dia.
– Na minha cama. – o de barba sorria desgostoso; retornava ao diálogo através da má lembrança.
– Era uma brincadeira apenas. Boba, eu sei, mas era brincadeira. Não foi para todo aquele escândalo, voltando para casa no mesmo dia, se recusando a entrar no mesmo carro que eu.
– Cara, odiei você mais naquele dia do que nunca serei capaz de odiar alguém, você me conhecia muito bem, sabia o horror que eu tinha, sempre tive, de anfíbios de qualquer espécie. Mas não foi só isso, você leu coisas que não tinha que ler naquele dia, disso você não se lembra? E espalhou para a corja dos seus amigos. Riram de mim como um bando de bestas, mas grande coisa, hoje eu vejo que aquilo não foi grande coisa. Mas à época foi horrível.
– Eu não sabia disso – disse a mulher.
– E isso que você se considera minha melhor amiga.
O irmão de regata fechou a cara, detestava aquela história de melhor amiga, mais de uma vez brigaram, ele e a mulher, por causa dessa estúpida cumplicidade que ela tinha com o irmão desde a adolescência. Como se adivinhasse o pensamento do irmão, o de barba falou:
– Você sabe, não sabe, que entre eu e ela...? Quero dizer, você entende, não entende?
– Eu tento entender. Aliás, eu sei que é impossível, eu sei que nunca... Bom, aceitar uma coisa e outra foram os dois maiores problemas da minha vida, você sabe bem disso. Engraçado você estar no centro dos dois.
– Não posso fazer muito a respeito. Dizer que sinto muito?
– Não me convence.
– Porque eu não sinto. Não sinto por ser eu mesmo, não sinto por ser amigo da sua esposa. O único problema que eu tenho faleceu.
Do outro lado da rua, a coruja piou de dentro do ninho.
– Se faleceu, – disse a mulher – se faleceu, então está morto. Enterrado. Não há mais que se preocupar.
– Aí é que você se engana – respondeu o da barba, os olhos brilhantes – os problemas tem vida útil para serem resolvidos, depois de falecidos e enterrados, então não é mais possível matá-los, é se acostumar com eles até a nossa própria morte.
– Sempre dramático! – o de regata virou os olhos.
– Eu não sei que ainda estou fazendo que não fui dormir, boa noite pro casal.
– Espera... – quis dizer a mulher, mas, nesse mesmo instante, um objeto maciço caiu com força no telhado da varanda, barulho forte de pancada, e escorregou para o chão num reflexo verde. Os três calaram-se e baixaram a cabeça para procurar na grama do que se tratava o objeto cadente. Nisso a chuva começou a cair.
Domingo
– Que é que há para se ver na chuva, menino?
– Que chove.
A mãe esfregava roupa num tanque, o menino, costas apoiadas na máquina de lavar, segurava um livro, mas prestava mais atenção no barulho de chuva, a luz da cozinha-área-de-serviço acesa, embora fossem quatro horas da tarde.
– Levanta daí menino, vai pegar uma gripe.
– Vou nada, tá bom aqui, mãe.
– Tá úmido aí, menino! Não tem nada que fazer lá dentro? Onde já se viu, lugar de criança não é aqui perto do tanque não.
– Mas é que eu gosto tanto de ler com o barulho da máquina de lavar...
A mãe sorriu, “esse menino não bate bem”.
– Mãe, a senhora acha que pode cair raio aqui em casa?
– Raio, menino, que coisa para se pensar. Não cai raio nenhum, que Santa Bárbara não deixa.
– Mas, mãe, caiu raio na casa da Tatiana, Santa Bárbara tava aonde?
– Deixa de ser besta menino, deixa. Sabe a igreja no fim da rua? Tem pára-raio lá, não tem como cair raio na rua inteira.
– Ah... Mas a senhora tem certeza, mãe?
– Claro menino. Anda, aproveita que tá aqui e me ajuda a tirar essa roupa do balde.
– Mãe... O que a senhora está fazendo lavando roupa se está chovendo?
– Você hoje está impossível, menino – os dois seguravam o enorme balde um de cada lado, despejando a água turva no tanque – Tenho tempo de lavar durante a semana, tenho? Se eu não lavo roupa hoje, não lavo mais até o domingo que vem. Mais tarde a gente pega a roupa limpa toda e leva na casa da Dona Mariana, que tem máquina de secar.
– Ah, mãe, eu não quero ir na casa da Dona Mariana.
– Por que, menino? Uma senhora tão boazinha, trata você tão bem.
– Mas o marido dela tá sempre de porre.
– Menino! – Ela largou a roupa que esfregava e aproveitou para afastar uma mecha de cabelo do rosto. – Não fala assim do Seu Timóteo, menino, que coisa mais feia. Ele é padrinho da sua irmã.
O menino fez uma careta.
– Eu não gosto dele, mãe. A Adriana falou que ele sempre mexe com as amigas dela, detesto aquele velho.
– Não se fala assim das pessoas... Mas quando que a Adriana disse isso?
– Sempre diz, sempre que a Emília vem brincar aqui e ela me obriga a brincar com elas. Detesto a Emília também.
– Tadinha da sua irmã.
O menino terminou de despejar o balde no ralo.
– Mãe, é verdade o que a Emília falou, que ela é rica e a gente é pobre?
– Ela falou isso? Que menina boba.
– Falou sim, falou que a gente só pediu pro Seu Timóteo ser padrinho da Adriana porque eles são ricos, que a gente sempre precisa de alguém rico pra pedir favor.
A Mãe franziu a testa. – Que menina bobalhona essa sua amiga Emília.
A máquina de lavar emitiu um forte estalo e parou de trabalhar subitamente. Funcionava meio mal agora. Por um instante, foi audível apenas o barulho da chuva batendo no telhado de zinco da cozinha. Logo a máquina normalizou-se. O menino sentou-se novamente no chão, retomando o livro.
– A Emília disse que a Adriana vai ser rica também um dia. E que eu vou ser sempre pobre. Por isso que ela gosta da Adriana e não gosta de mim.
– Bobagem, menino, bobagem. Eu tenho tanto que fazer e você vem aqui falar de bobagem? Não tem lição pra fazer, não?
– Tô fazendo, mãe, tenho que ler esse livro pra escola.
– Então lê quietinho e deixa a mãe terminar a roupa. Adriana! – A mulher gritou para dentro – A sua irmã tá vendo televisão?
– Não sei, não sou babá dela. Acho que ela saiu pra brincar.
– Nesse tempo? Depois não me vem reclamar de dor de garganta. Você também não, sentado aí no frio. Que é que eu fiz para merecer isto?
O menino emburrou. Continuou a leitura do livro, mas não era capaz de se concentrar. Aquela leitura era muito chata.
– Mãe?
– Que foi, menino?
Ele não respondeu. A mãe continuava esfregando, esfregando.
– Mãe...
Foi a vez da mulher ficar em silêncio.
– Mãe!
– Que foi menino? – Ela parou de esfregar para olhar para o filho.
– Agora esqueci o que ia dizer.
– Era mentira então.
– Não era...
Seguiram quietos por mais algum tempo. A mãe percebeu a inquietação do filho, que baixava a cabeça para o livro sem prestar atenção e olhava em seguida para a basculante encardida, por onde entrava quase nenhuma luz naquele dia de chuva.
– Mãe, por que é que a senhora não fala nada?
– Como assim, menino? Porque eu não tenho nada para falar! Sábio é quem tem alguma coisa que falar, bobalhão é quem tem que falar alguma coisa.
– Eu gosto de passar o dia aqui com a senhora, mãe.
O telefone tocou lá na sala. O menino largou o livro e saiu para atendê-lo num pulo.
A mãe largou a roupa no tanque e enxugou as mãos na blusa. Juntou do chão o livro que o filho estivera lendo e leu o título enquanto passava a mão sobre a testa, o suor de dissipando na mão gelada de água do tanque. Lembrava de ter lido aquele romance havia muito tempo, quando ela mesma estava na escola. Mas será que lera mesmo? Não lembrava de nada da história, como se tivesse passado por ela muito rápido, sem assimilar coisa alguma. De repente, olhou para o relógio na parede e assustou-se, o final de semana passara muito rápido. Largou o livro num canto e foi ver com quem o filho falava ao telefone, de repente era uma de suas patroas para dar algum aviso e não confiava em criança para dar recados.
A máquina de lavar continuou zunindo, o barulho da chuva de fundo: orquestra dominical.