Átimo

Essa poderia ser a história de um rapaz, um rapaz que olha pela janela do carro através da chuva e vê uma moça, uma moça que parece perdida. Não estamos todos perdidos?, ele pensaria, e, tendo coragem de descer do veículo, despindo-se bravamente da blindagem que o envolvia, pediria licença a ela, como um cavalheiro, e lhe pousaria um beijo nas costas da mão, de modo que ela não resistisse ao galanteio e sorrisse, ainda que seu instinto feminino a forçasse a parecer ofendida. Ele a convidaria para fazer qualquer coisa, talvez um café, de acordo com o clichê. Ela, rezando da mesma cartilha dos relacionamentos, de pronto sentir-se-ia ofendida, lhe diria que não. Mas ele, sendo tão doce, com mais uma ou outra palavra e um olhar irresistível, faria com que ela mudasse logo de ideia e seguiriam os dois juntos ao lugar seco mais próximo, que seria quente e alaranjado, em contraste com a chuva azul-cinzenta do lado de fora.
Os dois não trocariam beijos nesse primeiro encontro, é claro, deixariam para conhecerem-se melhor, trocariam e-mails, números de celular, expectativas de tardes ensolaradas ou não tão molhadas quanto aquela, ao menos, em que juntos passariam pelas alamedas dos parques, nos trechos de sol por entre as árvores, e encontrariam num chafariz ao fim do caminho não somente o sorriso um do outro, mas o sorriso acolhedor de um mundo inteiro, que os seguiria com os olhos. Aí sim se beijariam. Passariam os meses e os dois, palpitantes, ver-se-iam cada vez mais, precisando sempre de doses maiores um do outro do que da última vez em que se experimentaram.
Deixar-se-iam levar tanto pelos corações que, quando chegasse o dia em que a paixão se arrefecesse, não conseguiriam, a princípio, compreender o que se lhes faltava, até que começassem a sentir uma solidão crescente e os olhares, cada vez que se tocassem, doeriam, lhes acometendo de súbito uma tristeza imensa que terapeuta nenhum no mundo poderia explicar. Então um dia diriam um ao outro toda a sorte de coisas horríveis que lhes viessem à cabeça, só para escorcharem-se as feridas como se a dor causada, aumentada, diminuísse a sua própria. Perceberiam por fim, depois de muito tempo, que esse jogo de querer mostrar ao outro na pele o quanto sofriam somente lhes faria sofrer mais e mais, até o dia em que acordariam pela manhã compreendendo enfim que a ausência do outro lhes é mais do que indiferente, é um alívio. Respirariam fundo nesse dia, lembrar-se-iam com carinho de uma tarde em que fugiram da chuva, guardariam essa lembrança à chave no fundo de algum lugar que poderiam até chamar de alma os menos céticos, e levantariam da cama enfim em meio a uma manhã branca de sol, aptos a começar uma história nova.
Mas o mundo é tão infinitamente simples que está muito aquém do que queremos poder perceber. A história passa tão rápido pelos olhos do rapaz que ele nem mesmo a percebe e, quando o sinal torna-se verde, tira os olhos da garota e acelera para casa, deixando para trás, e nem sei se faz tão mal, três parágrafos inteiros de possibilidades incompletas e suposições.

Tarcísio e a mãe

pra Leti, pela inspiração; senão
visceral, clássico ao menos.


O inusitado do plano não foi o objetivo em si, mas o método. Tarcísio não suportava mais os encargos do palacete, mas havia a mãe, a mãe que se apegava à cópia da escritura do imóvel, chorava, fazia escândalo, exumava o marido morto e rogava ao filho que mantivesse o patrimônio da família, a casa da praia, senão ela morria, ah, sim, sem dúvida que cairia dura e morta, e os vermes não teriam por ela, da mesma forma, a comiseração que o filho ingrato lhe negara em vida. Professora de literatura aposentada, a mãe era sempre teatral, sempre dramática, e quando estava só, em seu apartamento - que, a custo de muitas lágrimas, ela própria o convencera a comprar no mesmo prédio onde ela morava desde a morte do marido - Tarcísio, o solteirão, irritava-se e prometia a si mesmo não mais sucumbir aos caprichos da velha. Quando ela começava com seus achaques, porém, e dizia que ia morrer e se atirava, fervorosa, aos pés do filho – os longos cabelos prateados desmantelando-se do coque e os olhos como dois tumores negros e semiliquefeitos que consumiam a energia dele – era certo que ele sucumbia comovido, emocionava-se e, quando se dava conta, tinha os olhos também marejados – que podia ele sem a mãe, afinal? Não custava ceder a uns poucos caprichos da velha e solitária senhora.

Tarcísio andava, entretanto, pela casa dos cinqüenta anos e de repente a idéia da velhice o esmagava enquanto andava pela rua, ou quando assistia ao telejornal. As idas ao médico se multiplicavam e sentia que apesar de todo o esforço da alma em agarrar-se à juventude que restava, o corpo inábil a deixava escorrer por entre os dedos. Nunca se casou, não teve filhos e, embora tivesse viajado bastante, nunca passara mais que um mês fora de sua cidade natal, onde a mãe viúva morava desde sempre e para tudo dependia dele. Surpreendia-se constantemente tomado por um sentimento de frustração que lhe irritava muito e ultimamente dera para culpar a mãe por tudo. Em cada fracasso, em cada chance que perdera na vida, passou a enxergar a sombra maternal, “não case com ela, meu filho, não é boa moça, se casar eu morro”, “para que trocar de emprego, Tarcísio, não troque o certo pelo duvidoso, não mate a sua mãe de preocupação”. A última da velha era a súbita paixão pela casa da praia, que era enorme e demandava tamanha quantidade de energia e de dinheiro para mantê-la que não fazia valer as duas semanas que geralmente lá passavam Tarcísio e sua mãe no verão, os dois entediando-se um ao outro e brigando e discutindo o tempo todo, fosse por causa de uma lâmpada queimada, fosse devido a um livro qualquer guardado com displicência.

Era muito mais inteligente se livrar da casa. Explicou à mãe com toda a paciência que não precisavam mais de todo aquele espaço, há muito que não tinham parentes nem amigos assíduos que lhe utilizassem as dependências. Eram obrigados a pagar um caseiro para passar lá o ano e constantemente pagavam à mulher dele por fora para fazer uma faxina no imóvel. E havia também os impostos, eram horrores de impostos todo ano! Além do mais, a propriedade obrigava-os a passar lá as curtas férias de verão de Tarcísio, que poderiam ser bem melhor empregadas se a cada ano pudessem ir a um lugar diferente. A velha fez pouco caso do discurso, porém, e agarrou-se à idéia de que lhe cabia, como matriarca, a consagração dos bens e das tradições de família. Fora o pai de Tarcísio que escolhera aquela praia e aquela casa como o porto seguro de lazer da família no verão e havia sido assim desde que Tarcísio era um bebê e ela era obrigada a limpar suas escatologias. Tarcísio contra-argumentava, em vão, que, se fosse esse o problema, bastava comprar uma casa menor, na mesma cidadela, quiçá na mesma rua, e assim teriam menos trabalho e menores despesas. A velha achou, então, oportunidade para um de seus dramas folhetinescos. Tresloucada e já em prantos, a mulher rogou ao filho que prometesse a ela não vender a casa nem depois que ela morresse. Tarcísio desistiu, então, de convencê-la e já lhe dava as costas quando ela insistiu com o pedido agarrada à cintura do homem, como se ela fosse a filha, débil e indefesa, e ele fosse o pai, senhor da felicidade e do desespero profundo de sua cria. Ao vê-la tão patética, Tarcísio comoveu-se, como de costume, e não teve remédio senão dizer em voz baixa, derrotado: “sim, mãe, eu prometo pra senhora”.

Passaram-se dias sem que a idéia do fracasso em convencer a mãe a aceitar uma transação tão simples e tão lógica deixasse de atormentar Tarcísio. Precisava pensar num modo de convencê-la, de inserir nela tão perfeitamente a idéia de que aquela venda era necessária, que a velha confundida acharia que a iniciativa partiu de sua própria mente senil e empregaria a própria energia histérica em prol da causa, esquecendo-se completamente da promessa a que obrigara o filho. A questão era como fazer isso, uma vez que Tarcísio não era, nem de longe, um exemplo de persuasão. Os colegas de trabalho riam-se sempre de suas contendas com a mãe, não adiantava pedir conselhos a eles, porque sabia que o encorajariam a vender a casa sem dar satisfação à mulher, uma vez em que era procurador dela e herdara também sua parte da casa. Só que os colegas não estariam lá quando ele tivesse que dar a notícia a ela e não tinham idéia do espetáculo que com certeza aquilo renderia. Tarcísio não tinha outras pessoas que pedir conselhos, entre o trabalho e os cuidados com a mãe, afastara-se de todos os poucos amigos que tivera na vida. Não tinha sequer uma amante, dessas que participam tanto da vida dos homens, os suportam em suas decisões e pensam com eles em seus problemas na cama ainda nuas, depois do ato sexual. Fazia anos que Tarcísio não tinha uma amante e sentia que se não tivesse negligenciado esse aspecto de sua vida, provavelmente se sentiria mais homem para resistir às cenas da mãe. Agora era tarde para pensar nesses deixados, concluía ele por fim, precisava de uma idéia para convencer a mãe a vender a casa antes que ela morresse de vez: sabia que não teria coragem de lhe quebrar a promessa depois de morta, julgava-se um desfibrado inseto por isso, mas não podia fazer nada. Sabia que não teria coragem e ponto.

A solução veio por acaso, num café da manhã de dezembro. Costumava fazer o desjejum no apartamento da mãe, sua vizinha de porta. Ao passar manteiga num pão, o velho rádio de cima da cômoda da sala de jantar recapitulava – num radiojornalismo-tablóide, desses tão ao gosto das camadas populares e também dos residenciais geriátricos (com direito a anúncios comerciais de funerárias e de remédios para artrites e artroses) – recapitulava os assaltos e seqüestros a veranistas que assolaram a orla (Tarcísio riu-se do termo – quem ainda se refere à "orla"?) na temporada passada. O radialista perguntava-se, para concluir o bloco, numa eloqüência populista, se teriam de novo que sofrer com a violência os honestos contribuintes do litoral. A mãe de Tarcísio concordava com o que ouvia e fazia pequenos comentários sobre como o mundo era um lugar pior graças às novas gerações e sobre como Popokelvski era um radialista bom e “das antigas”.

Tarcísio achou a princípio a idéia engraçada, depois um tanto quanto ingênua. Por fim disse “e por que não?”, se a mãe era tão afeita a folhetins, não haveria melhor maneira de lidar com o problema. Na mesma semana, saiu como se fosse ir ao trabalho e, antes de alcançar a freeway, fez dois telefonemas: um para o chefe, dando uma desculpa para a ausência, outro para a mãe, se desculpando por não poder almoçar em casa. Ia ter que aguentar o mau-humor da velha mais tarde, mas o plano excitava-o tanto que foi capaz de deixar esse pensamento de lado. Que peça pregaria na mãe! Era capaz de se tornar uma pessoa melhor até, por que não dar essa oportunidade à sua mãezinha? Tinha certeza de que ela iria querer se livrar da casa depois disso, era genial. Mas tinha que fazer direito. À polícia não precisaria mentir muito, era só deixar que a mãe tomasse para si o relato mais contundente dos fatos – o que ela certamente faria, quer ele tentasse a impedir, quer não. Precisava apenas era de um homem de confiança, e o caseiro não ia servir. Depois de todo aquele tempo sustentando aquele homem grosseiro e inútil, que passava o ano todo utilizando seus talheres e dormindo em suas camas, claro que ele não iria se dispor a colaborar com um plano que lhe tiraria o emprego. Resolvera isso no dia anterior, contatara um velho conhecido que conhecia um homem que conhecia outro homem que era perfeito para o serviço. Dirigia agora para o litoral a fim de encontrá-lo pessoalmente e discutir os detalhes do projeto. Estava disposto até a deixar que ele levasse alguns de seus equipamentos eletrônicos como parte do pagamento, até para que a coisa toda ficasse mais realista. Acertara suas férias para logo depois do natal e duas semanas depois partia com a mãe para a casa da praia confiante no plano arquitetado.

Na segunda noite de sua estada, deixou o portão descadeado de propósito. Estavam na sala de estar do térreo, Tarcísio e a mãe, quando entraram dois homens, armados de revólveres 38mm e renderam os dois. A velha gritava enquanto a amarravam, jogava os membros em todas as direções com uma força absurda e chegou a acertar uns bons pares de chutes e socos no bandido, que retribuiu com uma coronhada truculenta no rosto da velha. Não era difícil para Tarcísio fingir o pânico considerado o medo de que tudo desse errado, ou de que a mãe suspeitasse do mínimo sequer, e a violência do homem contra a senhora indefesa o ofendeu de verdade, de modo que ao protestar e xingar o agressor, também Tarcísio levou o seu golpe. Um dos homens permaneceu na sala com os dois enquanto o outro foi à cozinha atrás dos empregados. A velha recusava-se a parar de gritar, xingava o pretenso assaltante com palavras que Tarcísio nem sabia que ela sabia e com outras que mesmo Tarcísio não conhecia. O homem, de boné e óculos escuros, mandava ela ficar quieta, intimidava-a com a pistola, mas era inútil - a velha agora cuspia nele, ele cuspia de volta na velha. Em outras circunstâncias, Tarcísio teria achado aquilo tão grotesco quanto cômico, mas não raciocinava naquele momento, o cérebro como uma esponja pesada, encharcada de adrenalina. Quando o segundo homem retornou da cozinha com o caseiro e a mulher, foram trancados os quatro no banheiro do térreo, a velha ainda chutando e berrando e arranhando o ar com garras invisíveis. Quando, por fim, restaram apenas os quatro no escuro claustrofóbico do banheiro, a idosa começou a perder o fôlego. Respirava rápido e com força e produzia roncos horríveis que vinham de dentro do peito. “Tarcísio, Tarcísio” ela repetia, mas não era capaz de falar com o choque. Tarcísio tentava acalmá-la, insistia que o melhor era se livrar daquela casa, que a propriedade chamava atenção, não havia necessidade daquilo se a mãe o ouvisse só um pouquinho, só de vez em quando. A velha ficou em silêncio. Tarcísio era todo tensão, a qualquer momento agora a velha teria que dar o braço a torcer. Aguardou ansioso o julgamento da mãe por uma eternidade quase material, quase palpável, mas ele não veio. Demoraram a perceber que a velha tinha parado de respirar e Tarcísio reparou que não sentia tampouco os batimentos cardíacos da mãe, amarrada às suas costas, até há poucos momentos fortes e acelerados. A desgraçada estava morta e Tarcísio, paralisado. No silêncio que se fez entre a constatação da morte e a gritaria da esposa do caseiro, Tarcísio pôde ouvir os homens revirando a sala, derrubando e quebrando propositalmente uma série de objetos, bem como ele tinha lhes instruído.

O cavalo dançarino

Sonhei com o cavalo que dançava. Quando eu era criança, via aquele cavalo e achava o máximo a disposição que ele tinha de se embalar o tempo todo, a cabeça para lá e para cá, a pata dianteira direita marcando o ritmo trinário de uma valsa. Perdia horas na chácara, estava sempre aproveitando um descuido dos outros para me isolar nas baias e prestar atenção na dança do cavalo, que morreu pouco tempo depois, assim que nos mudamos, eu e minha mãe, meu pai ficando para trás e amaldiçoando-nos como se fossemos os culpados da morte do animal dançarino. Ele veio me ver esta noite, falou comigo. Juntos nos lembramos daqueles tempos, quando eu acordava muito cedo para ir à escola na cidade e voltava correndo à hora do almoço, louco para vê-lo, abraçá-lo, falar com ele sobre qualquer coisa assim que nos aproximasse. Ele me contou o quanto foi triste ficar na chácara depois que nos mudamos, quanta saudades sentiu enquanto definhava, uma morte solitária, dançando sua valsa até o fim. Éramos bons amigos eu e aquele cavalo. Veio sobretudo para me dar conselhos.
Acordei às quatro da tarde, os lábios cortados como se tivesse mastigado cacos de vidro. Era tarde demais para ir à aula. Ninguém em casa, comi qualquer coisa que sobrou do almoço. O telefone tocou até que o desliguei com raiva, não estava em casa, tecnicamente. Às cinco horas, peguei a mochila e fui à biblioteca da faculdade, onde dava para ficar sozinho sem pagar nada, porque minha mãe logo chegava do trabalho e eu não agüentaria ficar em casa. Escolhi a mesa mais ao fundo para dormir até umas oito horas, às nove tinha um compromisso. Dispus os livros à minha frente como quem arruma o travesseiro, quando a surpreendi me encarando. Não pude conter um estalo de língua, ela percebeu e enfureceu-se, veio direto em minha direção bufando. Eu já guardando os livros de volta para uma provável saída emergencial. Ainda não tinha decidido se a ouvia antes de sair quando ela puxou a cadeira e sentou-se, o nariz contraído de raiva esperando que eu me explicasse.
– Não tenho nada para explicar – Ela meio que quis rir, controlando-se, porém.
– Não é questão para explicações, é só confirmar o que é óbvio, a palavra final para oficializar o negócio, a legitimação para partir para a próxima.
Era a jurista falando, perdi a calma.
– Tudo o que eu tinha para dizer eu já disse no telefone, com licença, sim?
– Como assim com licença?
– Eu tenho um compromisso – levantei. Ela me acompanhou no gesto.
– Você ia dormir. Foi exatamente aqui, dormindo, que eu te conheci.
Flashes de nós dois, dedos entre cabelos num sofá de boate, como é que ela me levou a sério?
– Posso pedir um porquê? – Ela disse entre dentes, o orgulho que eu esmaguei desintegrando-se bem diante de mim.
– Eu já expliquei. É uma questão de fato. Cansei, enjoei, chama do que você quiser.
– A gente combinou...
– Sim, a gente combinou, mas eu não tava a fim sabe, tava a fim de fazer outras coisas, de dormir mais, mas não podia porque tinha combinado, mas que é vale a combinação?, por que é que tem que ser tudo assim institucionalizado, preso, desagradável? Por que não pode ser leve?, espontâneo?, não tô a fim, não tô afim, ponto final.
– Não é por isso ou por aquilo, não é porque sou eu. Você combinou, eu não deixaria de cumprir o combinado porque é falta de consideração com a pessoa, entende, seja ela quem for.
– Você me vê combinando coisas por aí com alguém? Eu deixei isso claro, você me obrigou a combinar. Você provocou tudo isso.
– Não dá mesmo para falar com você. – ela suspirou. Deixou-me na biblioteca. Olhei para o lado. O cavalo estava ali, dançando. Rindo de mim.

Uma noite com Ginger Rocha

Sou Ginger Rocha, habitué da noite porto-alegrense. É muita pretensão do tio Magorski chamar isto daqui de “uma noite com Ginger Rocha”, porque não existe uma noite na vida de Ginger, a vida de Ginger é uma noite que não acaba. Claro que fica tudo por isso mesmo, porque já deixei o tio Magorski fazer coisas muito menos providas de ética com Ginger Rocha do que isso. Ginger adora eufemismos bem articulados. Tem quem diga que eu sou uma clona brasuca da Patty Dimhusa do tio Pedrito. Em primeiro lugar, detesto essas gírias de gente contente, “brasuca”, xingue, mas respeite a si mesmo; quem fala “brasuca”, fala “fofo”, “massa”, “do balacobaco”, passa e-mail de auto-ajuda e acha que o mundo é um lugar bom de se viver – então que vá assistir ao Luciano Huck e não encha o saco. Jamais poderia me comparar com Patty, mestra e ídala, simplesmente porque Patty é internacional e Ginger, por sarcasmo do destino, é tão provinciana quanto cerveja Polar e mais bairrista ainda. Super me mudaria pra São Paulo ou para Buenos Aires, mundos de verdade, mas não suportaria os paulistas e os argentinos, respectivamente. Ginger pertence à noite de Porto Alegre e a noite de Porto Alegre precisa de Ginger para ficar um pouco menos boring do que já é. Mas Porto Alegre nunca vai ser Madrid, Ginger nunca vai ser Patty. Entretanto, admito: imito a Patty, sim! Essas galinhazinhas de hoje em dia não imitam a si mesmas o tempo todo com seus lencinhos Glória Kalil? – até meus amigos homens, que são todos gays, menos um, andam com essas coisas no pescoço, acho que eu estava de porre quando esses pedaços de pano dominaram o mundo, ou eu teria organizado um levante contra eles; e Ginger Rocha sempre ganha. Sou uma imitadora originalíssima, e é isso que me difere das franguetes da Independência.
Hoje, vou contar de uma noite dessas, como o Tio Magorski me pediu. “Se der certo essa porra”, ele me disse, “quem sabe você não aparece sempre aqui pelo blog, né, Ginger, meu amor”. Vamos lá, vamos ver o quanto as pessoas acham a Ginger aqui interessante.
Naquela noite, eu tinha vontade de acender uns dois, três cigarros, não sei o que se passava comigo. A Li – minha best da vez – não chegava nunca e os caras da mesa ao lado já me olhavam e riam indiretas e eu, que já me irrito facilmente, nem sabia o que eu fazia com os braços e nem queria mais minha cerveja. Da rua vinha um frio absurdo.
Decidi passar no banheiro e depois esperar do lado de fora, onde eu me sentia menos vulnerável, apesar do frio. Alguém que espera de pé na rua é menos loser que alguém que espera sentado num bar, porque esperar sentado pressupõe a possibilidade de esperar pra sempre, de ter sido deixado de lado, de ter sido escanteado por alguém; quem espera do lado de fora, de pé, na rua, ainda mais sendo mulher (sozinha como eu estava), espera com uma certeza, com a segurança de quem vai só fumar mais um cigarro porque a companhia se atrasou, mas vem - sempre vem.
Passou um táxi, passou outro, lá pelo décimo que passou comecei a ficar realmente puta - mas que diabo ela pensa que eu sou - e decidi andar, andar rua abaixo, meio que sem rumo, esperando que o mundo desse jeito naquela agonia que me matava de tédio e que eu conhecia de todos os dias. A Li ia se ver comigo. Dobrei numa esquina escura, nem pensei no medo, dobrei e vi uma luz meio vermelha, bar de putas ou seja lá o que era, vi e entrei. Sou dessas que sempre pensa que a sorte está esperando num single bar de um bar de putas. Lá dentro, uns losers como eu, mas assim que eu entrei e eles me viram, não me senti mais à vontade e pensei mesmo em sair correndo dali, aquelas pessoas nunca mais me veriam na vida mesmo, mas quando dei por mim já tinha sentado numa mesa bem suja, sentar direto no single bar é dar a cara a tapa, e já tinha pedido uma coisa barata pra garçonete muito antipática. Nem parecia um bar de putas por dentro, ou pelo menos eu não via nenhuma.
Logo uns bêbados começaram a discutir e um cara meio velho, meio novo saiu de trás de um balcão e botou os dois pra fora. Não era assim lindo e maravilhoso e eu bem que achei a voz dele meio afetada, mas eu me amarro num cara meio estranho, que faça as pessoas perguntarem. Decidi que eu meio que queria aquele cara.
Depois da briguinha todas as pessoas se acalmaram e continuaram sua noite boring, todas menos eu, que peguei a bolsa e me fui sentar no balcão pra ver meu alvo mais de perto. Ele era um tipo de barman. Pedi a ele uma vodka "pura com gelo", "pura?", e eu repeti, e ele "é isso mesmo que tu quer?" e eu olhei lá no cérebro dele "te quero com limão e sal". Mas disse "ops, com gelo e só". Ele me serviu a vodka e eu comentei que tava muito frio e ele nem deu muita bola pra mim. Terminei bem rápido pra pedir mais uma. Ele sorriu e disse "calma lá, não quer uma cerveja?", mas eu insisti na vodka. Amo vodka, "Vodka, você está aí? Aqui é a Ginger". Eu perguntei se o bar tinha aberto há pouco, porque eu não conhecia, imagina, Ginger Rocha não conhecia aquele bar, e ele me respondeu que estava lá já fazia uns três anos, que ele mesmo é que tinha aberto - de "tipo um barman" o meu crush evolui pra "tipo o dono do bar" e eu pensei "opa! já é". Ele de vez em quando tinha que atender alguém, mas sempre voltava pra falar comigo, porque eu comovi o rapaz com a história de ter sido abandonada no outro bar pela minha "melhor amiga", disse assim mesmo, fazendo aspinhas com as mãos, que homem adora mulher fazendo essas babaquices, de certo acham cute. E eu era só feromônios, também há que se considerar isto. Enfim, eu nem sabia mais que assunto puxar, decidi encostá-lo na parede da próxima vez, dizer - senão com todas as letras, com toda a convicção – pros hormônios dele que eu tava tri a fim. Superafim. Pra chegar nesse nível de determinação, é preciso dizer, eu passei por uma longa reflexão; na bagagem, dois meses de abstinência sexual, sobre a mesa, quatro doses de vodka vazias – eu não sou tão vadia barata assim como faço parecer às vezes. Sou Ginger Rocha, habitué da noite porto-alegrense.
O cara veio de novo mais rápido do que eu imaginava e eu “opa, azar, é agora”, e disse pra ele:
– Duas palavras: absinto.
– Oi? 
– Issae.
– Absinto é meio forte pra quem já pegou quatro vodkas.
– Me pega.
– Como?
– Digo, isso mesmo, absinto. Dois. Eu não perguntei teu nome.
– Ivan.
– Continuo não perguntando. Mas já que tu me disse, Ivan, podia pegar dois absintos e fazer o favor de tomar um deles comigo?
– Infelizmente já estamos fechando, os garçons estão reclamando que querem hora extra. Daqui a pouco já estou indo pra casa...
– Você mora onde, Ivan?
– Cidade Baixa.
– Coincidência! – Tri que eu moro na Zona Sul, pelo menos durante a semana. Mas Cidade Baixa é Zona Sul, come on. E Bomfim é Zona Norte.
– Se tu quiser, divido um táxi contigo.
– Tô de carro, chica.
– Melhor ainda.
Foi assim que o furo da Li me rendeu uma bela noite – apesar de não me lembrar muito bem dela, porque depois que chegou em casa, que chegamos na casa dele, o Ivan não precisava mais dirigir e daí foi só whisky. Digo, só alegria. Pra ficar no eufemismo bem articulado, digamos que a boca do Ivan conheceu e se tornou íntima de partes do corpo de Ginger que nem Ginger conhece, ela que sabe tudo da night. Minha mestra e ídala, Patty Dimhusa, ficaria orgulhosa. No outro dia passei na casa da Li lá pelas onze horas, para tomar um banho, e ela veio dizer “desculpa, Gi, fui em outra festa, sinto muito”, mas eu achei que não parecia muito sincero, melhor se ela dissesse “desculpa, Gi, fui noutra festa”. O Ivan me rendeu um ou outro rolo depois, mas isso fica para depois, porque eu tenho que dormir antes que anoiteça – Ginger Rocha não perde tempo dormindo depois que anoitece. Vamos ver se o tio Magorski se pilha de contar esses rolos outro dia.

Uma taça de leite quente

Havia qualquer coisa na manhã que era diferente. Raissan de alguma forma notou, mas não acreditava que lhe dissesse respeito, era provavelmente o ar mais poluído, a rua mais suja, o arroio mais fétido, qualquer coisa assim que não fazia diferença para ele. Tirou os sapatos, como de costume, dobrou cuidadosamente o moletom e escondeu tudo debaixo de uma das pontes que cruzava a avenida, receoso dos outros meninos da rua. Àquela hora da manhã, o fluxo de automóveis era bastante intenso já, Raissan tomou seu lugar ao lado do semáforo. Mal avermelhou o disco, partiu para a primeira rodada do dia. Teve sorte logo no primeiro carro, uma moça, uns vinte anos, lhe alcançou umas moedas e uma metade de sanduíche, que acabou dividindo com três ou quatro meninos que conhecia de vista, porque sabia que os egoístas não duravam muito tempo no negócio. Seus pequenos pés, endurecidos da labuta diária, iam e vinham ágeis entre as máquinas, uns carros fechando suas janelas depressa ao avistar-lhe e aos outros meninos, outros recusando ajuda. Outros ainda contribuindo com um trocado, mas todos eles de olhares temerosos, pavor, pavor pregado nos rostos. Raissan não compreendia, com toda sabedoria de rua que tinha aos quatro anos, porque era que os olhares dos homens dos carros eram tão pavorosos. Raissan tinha muito medo do escuro e à noite, quando a madrasta e os irmãos dormiam ao seu lado, e sempre dormiam antes dele, pregava os olhos e ficava imóvel, mudo de terror, exatamente como aquelas pessoas ficavam quando ele se dirigia a elas, então, de certo modo, sabia o que sentiam. Não sabia bem era o que é que temiam, algum monstro, ou bicho, ou inseto, não sabia, não podia entender como era que aqueles homens e mulheres tão adultos, tão limpos e confortáveis dentro de seus carros, podiam temer tanto alguma coisa na ordem estofada que eram suas vidas. Estofamento e medo eram duas idéias que, para Raissan, não faziam sentido unidas.

Nos intervalos entre uma fechada de sinal e outra, Raissan gostava de observar os personagens que se aglomeravam no cruzamento. Havia as crianças como ele, pedindo, os adultos que também pediam, as crianças e adultos que vendiam alguma coisa, os artistas e os vendedores de jornais, que procuravam não entrar em contato com o resto, um ou outro pedestre, que passava bem depressa, e os motoristas, cujos perfis compenetrados passavam mais depressa ainda. A velocidade deles não se comparava, é claro, proporcionalmente, à velocidade das curtas pernas de Raissan, grossas de ficar em pé o dia todo, que conheciam pelo tato o caminho entre os carros e lampejavam aqui e ali, onde houvesse uma janela aberta. Uma vez ou outra, esperando o momento de pedir, Raissan desejava que o dia passasse tão depressa quanto os intervalos dos semáforos. Detestava passar o dia todo ali, digo, para ele não faria diferença passar algum tempo na sinaleira, uma hora ou duas, ou até atingir determinado valor, porque no fundo, não era um menino preguiçoso, mas não tinha essa opção. Era ficar no sinal do amanhecer até quase a madrugada, ai dele se aparecesse antes. E se tentava escapar, a madrasta sabia, sempre sabia quando ele não permanecia o dia todo em seu posto, não sabia como, mas aquela danada daquela mulher podia adivinhar-lhe as mentiras, e, quando isso acontecia, era surra na certa. Já pensara em fugir para sempre também, nunca mais voltar para casa, mas não tinha para onde ir. Sofreria mais num abrigo sem o pai, sem os irmãos, sem ninguém, e mais ainda na rua, as coisas que as crianças que ficavam pela rua tinham de fazer eram terríveis demais mesmo para Raissan, que estava acostumado com a aridez do asfalto, com a dureza do cruzamento. O menino ficava exausto só de pensar na caminhada que lhe aguardava no fim do dia, da avenida até a casa da madrasta, mas não voltar para lá, ficar pelas marquises da avenida, como muitos dos que ele conheciam ficavam, era potencialmente pior.

Lá pela metade da manhã, Raissan já havia juntado uma quantidade razoável de moedas, poderia até barganhar alguma coisa para almoçar ao meio-dia. Estava satisfeito consigo mesmo. Foi quando avistou o Renan.

O Renan era o líder de um grupo de caras mais velhos, de treze, quatorze anos, que se chapavam e achavam que por isso podiam mandar nos menores. Metiam medo em todo mundo, andavam sempre em bandos, como uma matilha, pedaços de metal afiados nos bolsos, cola nas mangas, chinelos de dedo e tênis roubados de outros moradores de rua. Habitavam uma praça no centro durante a madrugada, dizia-se que alguns deles até se prostituíam, mas ai de quem falasse isso perto de um deles, ou que eles ouvissem falar de alguém que tivesse dito isso: era lâmina para o infeliz. Uma vez, Raissan presenciara quando um menino um pouco mais velho que ele, que devia alguma coisa ao Renan, não se sabe bem, e que quando avistou o bando vindo, mais ou menos na mesma hora em que vinham hoje, tentou fugir deles para o meio da rua e morreu atropelado. Naquele dia, Raissan voltou mais cedo para casa, assim que escureceu. Contou para a madrasta o que acontecera, explicou que o maior medo que tinha era de morrer atropelado e que se sentira tonto o dia todo depois de presenciar a morte do outro garoto. A madrasta não lhe bateu daquela vez, apenas gritou com ele, “e medo de morrer de fome, você não tem”, e Raissan não pôde dormir por uns dois dias depois disso; cada vez que pegava no sono, era como se o menino morto viesse falar com ele, dizer para tomar cuidado com as ruas tocando os dedos transparentes e frios no seu ombro, o mesmo cheiro do arroio invadindo as narinas de Raissan. Dizia também para não se meter com Raissan, não usar cola, nem usar pedra, que foi por causa disso que ele morrera. Raissan tinha muito medo de cole e de pedra, tanto quanto tinha de escuro e de atropelamento. O pai, mesmo ébrio, lhe dizia sempre para não se meter com essas coisas, mas nem precisava, Raissan se mantinha longe delas por vontade própria. Naquela manhã, ao ver se aproximar o bando de Renan, usou sua técnica de ficar invisível, aprendida um desenho numa manhã de domingo, o único dia em que a madrasta o permitia não ir para o sinal pela manhã. Não sabe se é porque estava nervoso, ou porque estava nublado – desde o início sabia que aquela era uma manhã diferente –, mas o fato é que não funcionou o truque, Renan não somente o avistou como decidiu mexer com ele. O bando parou rindo do seu lado, um dos caras já cutucando o seu rosto, outro pedindo dinheiro, “ajuda aí meu, todo mundo tá dizendo que tu tá bem hoje”. Como ele fizesse menção de não entregar o dinheiro, o próprio Renan o segurou rudemente pelo ombro e mandou ele passar algumas das moedas que conseguira, porque “quem era egoísta não sobrevivia no negócio”. Raissan alcançou ao garoto um punhado de moedas de má vontade. “Mais, meu”, exigiu o bando, Raissan foi dando mais, já dera mais da metade do que reunira naquela manhã, “mais!”; deixaram-no sem uma moeda sequer. Renan ainda cuspiu nele antes de ir embora, “bicha, tem um jeito de mulherzinha”, desapareceu o bando numa nuvem de loló, rindo feito doidos, feito humanos ante um filme de terror daqueles violentíssimos.

Raissan sentiu vontade de chorar, mas num segundo só sentia raiva, falou todos os nomes feios que conhecia, os débeis lábios explodindo ferozes em vulgaridades pornográficas e escatológicas, muitas das quais nem sabia o significado – muitos adultos de quarenta anos que passavam indiferentes em seus carros não sabiam os significados da maioria delas.

Voltando para casa à noite, cabisbaixo, com metade do dinheiro do dia nos bolsos, pensou num milhão de vinganças que podia pôr em prática contra Renan, formaria seu próprio bando, pagaria por uma arma, machucaria tanto o Renan antes de roubar tudo o que ele tinha e depois o deixaria nu para ser atropelado no meio da avenida. Chegou em casa um pouco mais tarde que de costume, a madrasta foi logo lhe gritando da oura peça que o irmão estava doente e que precisava de ajuda, e também que a janta que fez acabara porque seu pai chegara em casa com muita fome e que ele podia ver alguma coisa na geladeira para comer.

Ouviu, Raíza? – a menina levou um susto ao recobrar a condição feminina. Eventualmente se esquecia de que em casa ainda havia alguma segurança. Lavou os pés escurecidos enxugando-os no pano de chão. Na geladeira, apenas leite gelado, que Raíza serviu numa caneca de plástico. Esqueceu a avenida no que durou aquele leite, deixou de lado o Raissan, o Renan e seu bando, o disco luminoso trocando de cor sobre os motoristas e seu medo. Quase esqueceu os próprios medos, mas eles voltaram quando, no quarto escuro, a madrasta a mandou ficar de guarda e foi se deitar com seu pai do outro lado da cortina. Adormeceu tirando a febre do bebê, o gosto de leite ainda na boca.

Sapos

Do fundo da casa, o coaxar dos sapos trazia à madrugada uma alegria nostálgica. Ao longe, podia-se ouvir o mar. Dois homens adultos largados numa varanda sentiam no rosto a brisa quente de dezembro e permaneciam em silêncio já havia uma eternidade. Do outro lado da rua, uma coruja os espreitava receosa de seu ninho, que nunca se sabe o que esses forasteiros são capazes de fazer embriagados. Uma mulher veio de dentro, copos nas mãos. Sentou-se no meio dos dois homens e quebrou a harmonia muda da noite.
– Sinto que está para chover.
Como nenhum dos dois respondia, ela continuou – Tão enormes vocês dois, tão velhos e ainda de birra.
O homem à esquerda, regata e chinelos de dedo, olhou para ela como se subitamente percebesse sua existência. O homem à direita, barba cerrada e óculos de grau, continuou encarando o nada, limitando-se a fazer uma careta – era o mais orgulhoso dos homens.
– A mãe de vocês diria o que dessa situação?
– Provavelmente ficaria do lado desse aí – resmungou o barbudo sem mover o pescoço.
O homem que não tinha barba bufou, “sempre o mesmo”. A mulher entre os dois estalou a língua, ajeitou-se sobre os próprios joelhos – Adianta manter essa implicância um com o outro, adianta?
O de barba pediu licença e já ia se levantando, a mulher o reteve – Pode ficar aqui, resolveremos isso agora mesmo.
– Como que se resolve vinte anos agora mesmo? – indagou o sem barba, sem se dirigir propriamente à mulher.
– Indo dormir é que não se resolve. Eu não tenho a paciência que a mãe de vocês tinha, família é coisa séria e eu disse que não ia dormir enquanto não resolvesse isso.
– Bom, então você fica aí conversando com seu maridinho e resolvendo isso que eu vou para a cama, quero voltar pra cidade ainda amanhã de manhã.
– Deixa, deixa, que não dá pra falar com ele. Não escuta.
– Você que escuta, não é mesmo?, mas só para poder dizer que é você que está sempre certo.
– Ok, já estabelecemos um diálogo ao menos. – a mulher espalmou as mãos sobre as coxas. Um relâmpago ricocheteou no horizonte ao mesmo tempo, o ar tornou-se mais pesado.
– Não me entendo com esse daí nem que chovam sapos – disse o irmão que estava de pé, e acrescentou – aliás, pergunta para ele por que é que eu detesto sapos.
– Você me diz, por que é que você detesta sapos?
– Um dia a gente tava brincando aqui mesmo nessa casa – respondeu o da regata num meio sorriso – eu e meus amigos...
– Sim, porque só ele é que trazia amigos para a casa de praia. A mãe implicava com qualquer pessoa que tivesse a audácia de apreciar minha companhia. Mas ele não, ele podia ter quantos amigos quisesse, eram todos muito bons...
– De fato, seus amigos eram um pouco estranhos. Todos eles, se é que você me entende.
– Você não tinha me conhecido se eu não tivesse sido amiga dele primeiro – atalhou a mulher.
– Você foi a única com quem a minha mãe não implicou, decerto porque sabia que ele também gostava de você, gostava de você de um jeito que eu nunca pude gostar.
Os três retomaram o silêncio num certo constrangimento. O irmão de barba se arrependeu um pouco do comentário, o de regata abriu a boca para falar um par de vezes, mas não encontrou palavras, pelo menos não boas palavras, palavras que não o comprometessem.
– Enfim – a mulher foi quem quebrou o silêncio novamente – você estava aqui com seus amigos...
– Sim, e eles acharam uma boa idéia – tentou continuar o irmão de regata, mas o barbudo o interrompeu mais uma vez.
– Seus amigos não prestavam. Um era filho do agiota, a outra era filha do estelionatário, os dois iguais aos pais e iguais entre si, não foi à toa que se casaram.
– Eu não sou obrigado a ouvir isso. – Foi a vez do segundo irmão se levantar – A sua gente é que é decente, é? E você quem é para julgar, hein? Me responde, grande coisa que você é, meia dúzia de faculdades pela metade, remédios tarja preta. Quem é você, hein? Eu não fui criado com você.
O de barba enfezou-se, cruzou os braços e apertou os lábios, como um menino grande. O de regata, muito mais corpulento que o irmão, embora ligeiramente mais baixo, o enfrentava de peito estufado, braços para trás, provocando o irmão, patético galo de briga.
A mulher levantou-se também, temendo já pelas vias de fato, mas os irmãos não chegariam a tanto; depois de uma certa idade, nunca mais tinham se agredido fisicamente – o que não fora necessariamente saudável.
– Estamos aqui para resolver problemas, não para criar mais um! Eu não agüento mais esse clima pesado em cada data festiva, em cada aniversário! Eu conheço bem vocês dois, vão resolver isso aqui nem que seja a última coisa que eu faça. Ou eu vou sair, hein, pego o carro e vou embora daqui e nenhum de vocês vai me ver ou falar comigo de novo, nunca mais, ouviram bem?
O irmão de barba riu.
– Que foi, acha que é uma piada?
– Não. Mas você pareceu muito a minha mãe falando agora.
– Esqueci que ela fazia isso – acrescentou o outro – ficava dizendo que ia embora quando a gente brigava. Mas nunca ia, nunca foi.
– Você sempre começava a chorar e ela ficava do seu lado...
Mais um relâmpago refletiu nas janelas da casa de praia. A coruja entocou-se junto aos seus ovos no terreno baldio da frente. O vento acelerou.
– Ela sempre dizia que você era mais parecido com ela – disse o da regata.
– Mas era de você que ela gostava mais.
– Eu acho que não – atalhou a mulher – Só porque ela o protegia mais, não significa que gostava mais dele. Eu concordo com ele, você é muito mais parecido com a mãe de vocês, mais independente. Você é áries, né? A mãe de vocês também era de áries. Eu também sou, é por isso que a gente se dá bem. Seu irmão é de peixes, isso é uma coisa que nós temos em comum: nenhum de nós resiste a um charme de peixes. – Ela passou de leve a mão no rosto do marido, o irmão de regata.
– Mas você bem que gostava era dele... – disse o da regata num tom meio amargo. A esposa, de leve ofendida, afetou horror e resetou a mão.
– Como assim? Como que você me diz uma coisa dessas?
– Todo mundo sabe. – Ele riu, melancólico – até tentaram me alertar, veja só. No dia do casamento, um primo veio me dizer que achava, veio me perguntar se eu não duvidava de que era dele que você realmente gostava, se não tava casando comigo como prêmio de consolação...
A mão que acariciava tão logo se transfigurou em tapa que mesmo o irmão de barba sentiu como se tivesse sido atacado no próprio rosto.
– Às vezes... – a mulher não terminou a frase. Desta vez foi o rouco barulho de um trovão que estourou ao longe, fazendo os sapos coaxarem mais alto.
– Não é impossível, sabe... – disse o irmão esbofeteado esfregando o rosto, para surpresa do outro irmão, aproveitado o ensejo para fugir do conflito que ele mesmo causara – Não é impossível chover sapos. Acontece com freqüência, onde tem furacões e tal.
– Como naquele filme... – disse a mulher desviando os olhos vermelhos dos dois irmãos. O de barba olhava para o casal estupefato, o irmão e a cunhada, o diálogo tornando-se surreal.
– Sim. Os ventos levantam os bichos e chovem partes deles congeladas.
– Que nojo... – disse a mulher franzindo o rosto e encolhendo-se num arrepio, não se sabe se de frio, pelo tempo que virava, ou se de repugnância.
– E que fim leva a história dos sapos afinal? – quis saber ela, esfregando os braços.
– Digamos que... Choveu sapos naquele dia.
– Na minha cama. – o de barba sorria desgostoso; retornava ao diálogo através da má lembrança.
– Era uma brincadeira apenas. Boba, eu sei, mas era brincadeira. Não foi para todo aquele escândalo, voltando para casa no mesmo dia, se recusando a entrar no mesmo carro que eu.
– Cara, odiei você mais naquele dia do que nunca serei capaz de odiar alguém, você me conhecia muito bem, sabia o horror que eu tinha, sempre tive, de anfíbios de qualquer espécie. Mas não foi só isso, você leu coisas que não tinha que ler naquele dia, disso você não se lembra? E espalhou para a corja dos seus amigos. Riram de mim como um bando de bestas, mas grande coisa, hoje eu vejo que aquilo não foi grande coisa. Mas à época foi horrível.
– Eu não sabia disso – disse a mulher.
– E isso que você se considera minha melhor amiga.
O irmão de regata fechou a cara, detestava aquela história de melhor amiga, mais de uma vez brigaram, ele e a mulher, por causa dessa estúpida cumplicidade que ela tinha com o irmão desde a adolescência. Como se adivinhasse o pensamento do irmão, o de barba falou:
– Você sabe, não sabe, que entre eu e ela...? Quero dizer, você entende, não entende?
– Eu tento entender. Aliás, eu sei que é impossível, eu sei que nunca... Bom, aceitar uma coisa e outra foram os dois maiores problemas da minha vida, você sabe bem disso. Engraçado você estar no centro dos dois.
– Não posso fazer muito a respeito. Dizer que sinto muito?
– Não me convence.
– Porque eu não sinto. Não sinto por ser eu mesmo, não sinto por ser amigo da sua esposa. O único problema que eu tenho faleceu.
Do outro lado da rua, a coruja piou de dentro do ninho.
– Se faleceu, – disse a mulher – se faleceu, então está morto. Enterrado. Não há mais que se preocupar.
– Aí é que você se engana – respondeu o da barba, os olhos brilhantes – os problemas tem vida útil para serem resolvidos, depois de falecidos e enterrados, então não é mais possível matá-los, é se acostumar com eles até a nossa própria morte.
– Sempre dramático! – o de regata virou os olhos.
– Eu não sei que ainda estou fazendo que não fui dormir, boa noite pro casal.
– Espera... – quis dizer a mulher, mas, nesse mesmo instante, um objeto maciço caiu com força no telhado da varanda, barulho forte de pancada, e escorregou para o chão num reflexo verde. Os três calaram-se e baixaram a cabeça para procurar na grama do que se tratava o objeto cadente. Nisso a chuva começou a cair.

Domingo

– Olha a chuva, mãe!
– Que é que há para se ver na chuva, menino?
– Que chove.
A mãe esfregava roupa num tanque, o menino, costas apoiadas na máquina de lavar, segurava um livro, mas prestava mais atenção no barulho de chuva, a luz da cozinha-área-de-serviço acesa, embora fossem quatro horas da tarde.
– Levanta daí menino, vai pegar uma gripe.
– Vou nada, tá bom aqui, mãe.
– Tá úmido aí, menino! Não tem nada que fazer lá dentro? Onde já se viu, lugar de criança não é aqui perto do tanque não.
– Mas é que eu gosto tanto de ler com o barulho da máquina de lavar...
A mãe sorriu, “esse menino não bate bem”.
– Mãe, a senhora acha que pode cair raio aqui em casa?
– Raio, menino, que coisa para se pensar. Não cai raio nenhum, que Santa Bárbara não deixa.
– Mas, mãe, caiu raio na casa da Tatiana, Santa Bárbara tava aonde?
– Deixa de ser besta menino, deixa. Sabe a igreja no fim da rua? Tem pára-raio lá, não tem como cair raio na rua inteira.
– Ah... Mas a senhora tem certeza, mãe?
– Claro menino. Anda, aproveita que tá aqui e me ajuda a tirar essa roupa do balde.
– Mãe... O que a senhora está fazendo lavando roupa se está chovendo?
– Você hoje está impossível, menino – os dois seguravam o enorme balde um de cada lado, despejando a água turva no tanque – Tenho tempo de lavar durante a semana, tenho? Se eu não lavo roupa hoje, não lavo mais até o domingo que vem. Mais tarde a gente pega a roupa limpa toda e leva na casa da Dona Mariana, que tem máquina de secar.
– Ah, mãe, eu não quero ir na casa da Dona Mariana.
– Por que, menino? Uma senhora tão boazinha, trata você tão bem.
– Mas o marido dela tá sempre de porre.
– Menino! – Ela largou a roupa que esfregava e aproveitou para afastar uma mecha de cabelo do rosto. – Não fala assim do Seu Timóteo, menino, que coisa mais feia. Ele é padrinho da sua irmã.
O menino fez uma careta.
– Eu não gosto dele, mãe. A Adriana falou que ele sempre mexe com as amigas dela, detesto aquele velho.
– Não se fala assim das pessoas... Mas quando que a Adriana disse isso?
– Sempre diz, sempre que a Emília vem brincar aqui e ela me obriga a brincar com elas. Detesto a Emília também.
– Tadinha da sua irmã.
O menino terminou de despejar o balde no ralo.
– Mãe, é verdade o que a Emília falou, que ela é rica e a gente é pobre?
– Ela falou isso? Que menina boba.
– Falou sim, falou que a gente só pediu pro Seu Timóteo ser padrinho da Adriana porque eles são ricos, que a gente sempre precisa de alguém rico pra pedir favor.
A Mãe franziu a testa. – Que menina bobalhona essa sua amiga Emília.
A máquina de lavar emitiu um forte estalo e parou de trabalhar subitamente. Funcionava meio mal agora. Por um instante, foi audível apenas o barulho da chuva batendo no telhado de zinco da cozinha. Logo a máquina normalizou-se. O menino sentou-se novamente no chão, retomando o livro.
– A Emília disse que a Adriana vai ser rica também um dia. E que eu vou ser sempre pobre. Por isso que ela gosta da Adriana e não gosta de mim.
– Bobagem, menino, bobagem. Eu tenho tanto que fazer e você vem aqui falar de bobagem? Não tem lição pra fazer, não?
– Tô fazendo, mãe, tenho que ler esse livro pra escola.
– Então lê quietinho e deixa a mãe terminar a roupa. Adriana! – A mulher gritou para dentro – A sua irmã tá vendo televisão?
– Não sei, não sou babá dela. Acho que ela saiu pra brincar.
– Nesse tempo? Depois não me vem reclamar de dor de garganta. Você também não, sentado aí no frio. Que é que eu fiz para merecer isto?
O menino emburrou. Continuou a leitura do livro, mas não era capaz de se concentrar. Aquela leitura era muito chata.
– Mãe?
– Que foi, menino?
Ele não respondeu. A mãe continuava esfregando, esfregando.
– Mãe...
Foi a vez da mulher ficar em silêncio.
– Mãe!
– Que foi menino? – Ela parou de esfregar para olhar para o filho.
– Agora esqueci o que ia dizer.
– Era mentira então.
– Não era...
Seguiram quietos por mais algum tempo. A mãe percebeu a inquietação do filho, que baixava a cabeça para o livro sem prestar atenção e olhava em seguida para a basculante encardida, por onde entrava quase nenhuma luz naquele dia de chuva.
– Mãe, por que é que a senhora não fala nada?
– Como assim, menino? Porque eu não tenho nada para falar! Sábio é quem tem alguma coisa que falar, bobalhão é quem tem que falar alguma coisa.
– Eu gosto de passar o dia aqui com a senhora, mãe.
O telefone tocou lá na sala. O menino largou o livro e saiu para atendê-lo num pulo.
A mãe largou a roupa no tanque e enxugou as mãos na blusa. Juntou do chão o livro que o filho estivera lendo e leu o título enquanto passava a mão sobre a testa, o suor de dissipando na mão gelada de água do tanque. Lembrava de ter lido aquele romance havia muito tempo, quando ela mesma estava na escola. Mas será que lera mesmo? Não lembrava de nada da história, como se tivesse passado por ela muito rápido, sem assimilar coisa alguma. De repente, olhou para o relógio na parede e assustou-se, o final de semana passara muito rápido. Largou o livro num canto e foi ver com quem o filho falava ao telefone, de repente era uma de suas patroas para dar algum aviso e não confiava em criança para dar recados.
A máquina de lavar continuou zunindo, o barulho da chuva de fundo: orquestra dominical.