A maior pensadora do século XIX foi a filósofa estadunidense Scarlett O'Hara. Além de sua famosa máxima "after all, tomorrow is another monday", escreveu o best seller feminista Onde você vê uma cortina, eu vejo um vestido, pioneiro ao tratar do empreendedorismo das mulheres americanas no pós-guerra.
Academicismo
A maior pensadora do século XIX foi a filósofa estadunidense Scarlett O'Hara. Além de sua famosa máxima "after all, tomorrow is another monday", escreveu o best seller feminista Onde você vê uma cortina, eu vejo um vestido, pioneiro ao tratar do empreendedorismo das mulheres americanas no pós-guerra.
Pragmatismo
How insensitive
Curto essa coisa minimalista, mas não ao extremo, saca. - disse, e caminhou até o oposto do quarto, e cobriu o abajur de vermelho.
Assim não, o outro protesta, e descobre a lâmpada.
Descobre a lâmpada.
O primeiro apaga a luz.
Assim não, o outro protesta, e descobre a lâmpada.
Descobre a lâmpada.
O primeiro apaga a luz.
Só tinha de ser com você
Às vezes tudo o que falta é um contato da Bretanha às quatro horas da manhã de um dia útil. Aí a escolha fica clara como água: a escolha é não escolher nada, que é pra não perder essa coisa boa que é precisar um do outro.
Karma
Sozinho no quarto àquela hora da madrugada provocando os próprios nervos, Suzanne Vega reading a newspaper, só por diversão. Do outro lado da tela, o outro espera por um sinal eletrônico, talvez, um sinal que não vai vir tão cedo, porque não sou desses, porque em seguida eu durmo assistindo um seriado qualquer escrito por uma ex-stripper ou seja lá o que for. Suponho.
Detalhes. Lua em gêmeos, ha, praticamente satanás, foi o que me disseram. Eu nunca disse que era uma pessoa boa, mas tenho ascendente em virgem, então o pessoal vai logo pensando que eu sou uma pessoa boa, e bem organizada e competente – competente, minha vida é o caos, cara. Mas eu sou ateu, graças a deus, nem acredito nessas coisas: só pega em quem acredita.
O outro dia passa sem manhã, querendo ou não, já são seis horas, e a garganta arranha e machuca e o esôfago infla com todo o vazio do mundo. Quem garante, quem garante, melhor mesmo é sentar-se na cama, bem aquecido, preparado, mas inerte, e esperar a vida passar. E se eu morro, aquela pergunta, ora: se eu morro é melhor. Vou ficar aqui quietinho fingindo que já morri só para experimentar como é e quem sabe provar meu ponto de vista. Quem sabe, quem sabe.
Quando chega a hora me despeço do orgulho, ritual de passagem, conecto e penso “quanto de paciência existe no mundo”. Nada, nada. Não sei. Conecto. Nenhum sinal, e a culpa é minha. Deixemos para amanhã, vou ali morrer mais um pouco e quem sabe não reste muito para ser morto pelo vazio. Pela própria incompetência. De novo: suposição.
Detalhes. Lua em gêmeos, ha, praticamente satanás, foi o que me disseram. Eu nunca disse que era uma pessoa boa, mas tenho ascendente em virgem, então o pessoal vai logo pensando que eu sou uma pessoa boa, e bem organizada e competente – competente, minha vida é o caos, cara. Mas eu sou ateu, graças a deus, nem acredito nessas coisas: só pega em quem acredita.
O outro dia passa sem manhã, querendo ou não, já são seis horas, e a garganta arranha e machuca e o esôfago infla com todo o vazio do mundo. Quem garante, quem garante, melhor mesmo é sentar-se na cama, bem aquecido, preparado, mas inerte, e esperar a vida passar. E se eu morro, aquela pergunta, ora: se eu morro é melhor. Vou ficar aqui quietinho fingindo que já morri só para experimentar como é e quem sabe provar meu ponto de vista. Quem sabe, quem sabe.
Quando chega a hora me despeço do orgulho, ritual de passagem, conecto e penso “quanto de paciência existe no mundo”. Nada, nada. Não sei. Conecto. Nenhum sinal, e a culpa é minha. Deixemos para amanhã, vou ali morrer mais um pouco e quem sabe não reste muito para ser morto pelo vazio. Pela própria incompetência. De novo: suposição.
1.
- Cara, olha que coisa genial: vou pegar para te mostrar.
Deixou-o só, sentado na saleta claustrofóbica, entulhada de dois sofás encardidos, uma estante caindo aos pedaços de cupim e uma mesa quebrada de computador em que se equilibrava a muito custo um modelo informático antigo, todo cinza e muito sujo, zunindo no silêncio do apartamento.
- Posso tomar um copo d’água?, perguntou, e o dono da casa gritou que sim, que podia pegar na geladeira.
Levantou-se e buscou a água, tendo o cuidado de servir-se da garrafa que estava lacrada, porque o amigo era desses que tomam a água no bico e, portanto, se ele se servisse da garrafa que já estava aberta, a água lhe pareceria ter gosto de cuspe.
Seu anfitrião já vinha animado do quarto quando ele voltou à saleta, e trazia consigo uns papéis desalinhados com notas diversas escritas a lápis.
- Este – disse o amigo numa solenidade que ele não conseguiu levar a sério – é um esboço do meu primeiro romance. Vê-se que vai ser uma obra prima. Nasci para escritor, me dói que tenha demorado tanto a perceber meu real talento, meu destino, minha razão de vida.
O amigo lhe sorria calorosamente, sorriso que ele retribuía com um silêncio permissivo, ainda que constrangido.
- Estou te falando – continuou – se Camus estava certo, então a minha escolha é não cometer o suicídio, pelo menos não antes de terminar essa obra. Depois, só o que precisará viver será meu nome, meu corpo poderá apodrecer se assim Deus o quiser.
Falava por falar, pela força da expressão, rábula que era. Não acreditava em Deus, e Ramiro bem o sabia porque era ateu também, e por isso encolheu-se, todo irônico: “Eduardo dramático”.
- E qual é o enredo? – perguntou sem emoção – Me desculpa, Eduardo, mas tu sabe que eu não vou ler teus garranchos.
Eduardo achou graça na franqueza e riu obscenamente. Ramiro irritou-se. Desprezava aquela indulgência, desejava ferir o amigo, fazer contorcerem-se de dor aqueles lábios que não sabiam o que era a melancolia, quebrar os dentes brancos e perfeitos acostumados a conquistar confianças alheias. Sentia-se incapaz, no entanto.
- Certo, não precisa ler. É sobre uma cidade...
- Uma cidade? – perguntou um Ramiro contido, querendo demonstrar ceticismo.
- Sim – Eduardo levantou-se com energia e se botou a explicar sua história, através de gestos, perdigotos e grunhidos, assemelhando-se, na ideia de Ramiro, a um animal selvagem, grande e estúpido, que precisava ser protegido de si mesmo – É sobre uma cidade que, no verão, é invadida por uma fumaça negra, – prosseguiu; falava com dramaticidade – uma fumaça estranha e sobrenatural que toma as ruas e as casas, engole a luz do sol e deixa tudo frio de repente. Um frio asfixiante de humo. Aí as pessoas que vivem na cidade se isolam uma das outras e vão enlouquecendo aos poucos. Veja que é necessário que se isolem, para que percebam, de uma vez por todas, que já eram isoladas, esmagadas pela rotina, sabe, pelos pequenos traumas, pelas coisas sem importância que se repetem e se repetem, por suas reclamações insinceras de tédio, porque, na verdade, elas gostam do tédio, elas amam o tédio, o tédio é seu deus, pois, se deixam de acreditar no tédio, de falar do tédio, de cultuar o tédio em seus perfis no Twitter, então toda a existência que elas conhecem está comprometida, entende? Elas se conhecem através do tédio, o tédio é o que lhes dá razão e sentido.
- Entendo, – refletiu Ramiro – mas não sei. Acho que talvez essa tua ideia de tédio seja um tanto quanto batida, um tanto quanto lugar comum, sabe? Senso comum.
- Tu acha?
- Acho. Não sei se gosto.
Silêncio. Eduardo sentou-se ao lado de Ramiro, que podia sentir seu desapontamento, as células murchando, o entusiasmo se esvaindo, a expiração derradeira do orgulho moribundo. Adorava ser espectador daquela agonia e gozava a dor do outro com bem disfarçado triunfo.
Eduardo ruminou a resposta negativa do amigo por algum tempo, depois o encarou com seus olhos enormes e escuros. Pousando a mão no ombro de Ramiro, numa atitude carinhosa que era bem do seu feitio, suspirou.
- Cara, tua opinião conta muito para mim. Sério mesmo que tu não gostou?
Ramiro atrapalhou-se com aquela demonstração ridícula. Impertinência, impertinência. Franziu a testa. Desesperado, desvencilhou-se do calor da mão e tentou explicar, sem jeito, que não era bem assim, não fora bem isso que quisera dizer. O argumento era muito bom, sim, só o que era preciso era lapidar um pouco a justificativa.
- Aliás, para que se prender a uma justificativa? Deixa o enredo justificar-se por si, a ideia toda é muito boa, a história tem potencial – completou e esforçou-se para mostrar um sorriso encorajador. Eduardo deixou-se consolar como um menino, mas a frágil casca dentro de si já se quebrara sem conserto. Ramiro sabia, fora ele quem provocou o estalo. Fizera de propósito e agora sentia remorso.
- Bem, pode ser – concluiu Eduardo, recuperando de uma só vez o tom enérgico que lhe era característico – Enfim. Estamos é perdendo tempo. Vou tomar um banho rápido e em seguida saímos. Precisa de alguma coisa?
- Não, fico bem aqui.
- Ótimo, volto já.
Ramiro, já sozinho, engoliu o que restara de água no copo num só gole, a garganta parecendo que ia rasgar. “Imbecil”, pensou, resistindo a declarar, ainda que mentalmente, a quem se referia.
Deixou-o só, sentado na saleta claustrofóbica, entulhada de dois sofás encardidos, uma estante caindo aos pedaços de cupim e uma mesa quebrada de computador em que se equilibrava a muito custo um modelo informático antigo, todo cinza e muito sujo, zunindo no silêncio do apartamento.
- Posso tomar um copo d’água?, perguntou, e o dono da casa gritou que sim, que podia pegar na geladeira.
Levantou-se e buscou a água, tendo o cuidado de servir-se da garrafa que estava lacrada, porque o amigo era desses que tomam a água no bico e, portanto, se ele se servisse da garrafa que já estava aberta, a água lhe pareceria ter gosto de cuspe.
Seu anfitrião já vinha animado do quarto quando ele voltou à saleta, e trazia consigo uns papéis desalinhados com notas diversas escritas a lápis.
- Este – disse o amigo numa solenidade que ele não conseguiu levar a sério – é um esboço do meu primeiro romance. Vê-se que vai ser uma obra prima. Nasci para escritor, me dói que tenha demorado tanto a perceber meu real talento, meu destino, minha razão de vida.
O amigo lhe sorria calorosamente, sorriso que ele retribuía com um silêncio permissivo, ainda que constrangido.
- Estou te falando – continuou – se Camus estava certo, então a minha escolha é não cometer o suicídio, pelo menos não antes de terminar essa obra. Depois, só o que precisará viver será meu nome, meu corpo poderá apodrecer se assim Deus o quiser.
Falava por falar, pela força da expressão, rábula que era. Não acreditava em Deus, e Ramiro bem o sabia porque era ateu também, e por isso encolheu-se, todo irônico: “Eduardo dramático”.
- E qual é o enredo? – perguntou sem emoção – Me desculpa, Eduardo, mas tu sabe que eu não vou ler teus garranchos.
Eduardo achou graça na franqueza e riu obscenamente. Ramiro irritou-se. Desprezava aquela indulgência, desejava ferir o amigo, fazer contorcerem-se de dor aqueles lábios que não sabiam o que era a melancolia, quebrar os dentes brancos e perfeitos acostumados a conquistar confianças alheias. Sentia-se incapaz, no entanto.
- Certo, não precisa ler. É sobre uma cidade...
- Uma cidade? – perguntou um Ramiro contido, querendo demonstrar ceticismo.
- Sim – Eduardo levantou-se com energia e se botou a explicar sua história, através de gestos, perdigotos e grunhidos, assemelhando-se, na ideia de Ramiro, a um animal selvagem, grande e estúpido, que precisava ser protegido de si mesmo – É sobre uma cidade que, no verão, é invadida por uma fumaça negra, – prosseguiu; falava com dramaticidade – uma fumaça estranha e sobrenatural que toma as ruas e as casas, engole a luz do sol e deixa tudo frio de repente. Um frio asfixiante de humo. Aí as pessoas que vivem na cidade se isolam uma das outras e vão enlouquecendo aos poucos. Veja que é necessário que se isolem, para que percebam, de uma vez por todas, que já eram isoladas, esmagadas pela rotina, sabe, pelos pequenos traumas, pelas coisas sem importância que se repetem e se repetem, por suas reclamações insinceras de tédio, porque, na verdade, elas gostam do tédio, elas amam o tédio, o tédio é seu deus, pois, se deixam de acreditar no tédio, de falar do tédio, de cultuar o tédio em seus perfis no Twitter, então toda a existência que elas conhecem está comprometida, entende? Elas se conhecem através do tédio, o tédio é o que lhes dá razão e sentido.
- Entendo, – refletiu Ramiro – mas não sei. Acho que talvez essa tua ideia de tédio seja um tanto quanto batida, um tanto quanto lugar comum, sabe? Senso comum.
- Tu acha?
- Acho. Não sei se gosto.
Silêncio. Eduardo sentou-se ao lado de Ramiro, que podia sentir seu desapontamento, as células murchando, o entusiasmo se esvaindo, a expiração derradeira do orgulho moribundo. Adorava ser espectador daquela agonia e gozava a dor do outro com bem disfarçado triunfo.
Eduardo ruminou a resposta negativa do amigo por algum tempo, depois o encarou com seus olhos enormes e escuros. Pousando a mão no ombro de Ramiro, numa atitude carinhosa que era bem do seu feitio, suspirou.
- Cara, tua opinião conta muito para mim. Sério mesmo que tu não gostou?
Ramiro atrapalhou-se com aquela demonstração ridícula. Impertinência, impertinência. Franziu a testa. Desesperado, desvencilhou-se do calor da mão e tentou explicar, sem jeito, que não era bem assim, não fora bem isso que quisera dizer. O argumento era muito bom, sim, só o que era preciso era lapidar um pouco a justificativa.
- Aliás, para que se prender a uma justificativa? Deixa o enredo justificar-se por si, a ideia toda é muito boa, a história tem potencial – completou e esforçou-se para mostrar um sorriso encorajador. Eduardo deixou-se consolar como um menino, mas a frágil casca dentro de si já se quebrara sem conserto. Ramiro sabia, fora ele quem provocou o estalo. Fizera de propósito e agora sentia remorso.
- Bem, pode ser – concluiu Eduardo, recuperando de uma só vez o tom enérgico que lhe era característico – Enfim. Estamos é perdendo tempo. Vou tomar um banho rápido e em seguida saímos. Precisa de alguma coisa?
- Não, fico bem aqui.
- Ótimo, volto já.
Ramiro, já sozinho, engoliu o que restara de água no copo num só gole, a garganta parecendo que ia rasgar. “Imbecil”, pensou, resistindo a declarar, ainda que mentalmente, a quem se referia.
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